quinta-feira, 16 de outubro de 2008

ALDO PAGOTTO

Aldo Pagotto: Um bispo de duas personalidades.
Ás vezes tenho saudade dos dois últimos arcebispos da Paraíba: Dom José Maria Pires e Dom Marcelo Pinto Carvalheira. Pois ambos não se misturavam com a política nos seus bastidores mais mesquinhos e nojentos como faz o atual arcebispo, Aldo Pagotto.
Logo quando chegou à Paraíba começou a causar polêmica. Disse em rede estadual que não toleraria padre na política partidária, nem que fosse para lutar em favor dos mais necessitados.
Ele pensa que nos engana. Mera ingenuidade de quem acreditou, pois o que vemos é um bispo que já até apareceu em guia eleitoral, faz parte do comitê pela transposição do Rio São Francisco (que não deixa de envolver políticos e a dividir opiniões na sociedade) e agora, por último, vem se apresentando na televisão falando de corrupção na política (desvio de dinheiro público para campanha eleitoral).
Tudo poderia ser um ato cristão se a atitude do arcebispo não fosse apenas unilateral. O senhor Aldo Pagotto faz política partidária sim, e os mais inteligentes sabem de qual lado ele está.
Ele defende um governo que controla há mais de vinte anos a cidade Campina Grande como se fosse um coronel nos tempos antigos da ditadura e do voto de cabresto. Como se não bastasse, ele está de maneira sutil, discreta, mas notória, do lado de um governo que já foi cassado duas vezes por uso indevido de dinheiro em campanha eleitoral.
Dom Aldo Pagotto é uma vergonha para os católicos. Ele tem duas personalidades. Deveria cuidar das suas ovelhas famintas e desgarradas do seu rebanho. O papel do bispo é de conscientização e de denúncia, mas principalmente é dever do pastor católico ser coerente com aquilo que diz.
Ele precisa saber que a Idade Média já era. O papel de investigar e de punir os culpados (se houver) é do Ministério Público e Justiça Eleitoral. O arcebispo não tem nada que ir às vésperas da eleição fazer denúncias que já estão sendo investigadas pelos órgãos competentes, e como se fosse “garoto propaganda” de partido político dar lição de moral.
Se a sua intenção não era de dividir o rebanho católico, quero aqui dizer, que isto ele já está fazendo ao se expor e a se meter em assuntos que nem fazem parte da sua diocese. Penso que tem assuntos mais urgentes a tratar dentro da Igreja Católica.
Mas um questionamento não quer calar. O que tem ganhado o arcebispo da Paraíba para defender tanto um governo que ainda está em pé por força liminar da justiça?
Quando saiu a decisão do TRE sobre a cassação, o arcebispo em questão foi incapaz de lançar uma nota de repúdio na imprensa ou ir aos meios expor sobre o assunto. Preferiu ser omisso. E por que agora az em plena semana eleitoral? Será algum acordo acertado na calada da noite? Se for, os fiéis católicos e o povo em geral precisam saber que tipo de acordo tem firmado este senhor com o governo atual.
Não duvido que nas próximas eleições teremos um arcebispo candidato a governador. Aliás, será que é por isso que ele não tolera padre na política? Pois os padres seriam seus principais concorrentes.

“Quem vota em políticos corruptos, vota na morte”. O senhor arcebispo é a própria morte!

terça-feira, 30 de setembro de 2008

ELEIÇÕES 2008

ELEIÇÕES 2008. QUEM GANHA COM ESTA DISPUTA?

* Eraldo Amorim

Mais uma vez estamos diante de uma disputa eleitoral: projetos, promessas escabrosas, insultos, simpatia, “tapinhas” nas costas, panfletos, bandeiras, comícios, exploração dos pobres, compra de voto (por mais que a justiça repreenda), troca de favores... e quem ganha com tudo isto? Dizem por ai que é essa tal de democracia. Será? Tenho lá minhas dúvidas. Será que vivemos, de fato, numa? Ou ainda estamos aprendendo a vivenciá-la?

De quatro em quatro anos presenciamos a disputa de alguns ao maior cargo municipal, o de prefeito, e de quebra, também de umas dezenas de candidatos (alguns hilariantes), aqueles que a maioria da população não sabe nem quem são. A propósito, você eleitor, lembra de pelo menos o nome da metade daqueles que legislam em seu município? Parabéns se você sabe. Mas esta não é a realidade da maioria da população. Muitos eleitores nem lembram e muito menos sabem o que eles fazem na câmara.

De maneira equivocada afirmamos que este ano é tempo de política, como se os outros anos não fossem. Cidadão consciente não é aquele que participa da escolha dos governantes apenas no período eleitoral, mas que fiscaliza, cobra as promessas feitas, exige honestidade, reivindica seus direitos, se intera sobre os assuntos, critica e participa das mudanças. O desafio é fazer o cidadão comum conscientizar-se do seu potencial político, engajar-se no comprometimento pelo bem comum. Fato longe de acontecer, mas não impossível. Só uma educação política eficaz poderá trazer.

A democracia se fortalece cada vez mais quando se sabe utilizar bem os recursos para uma boa escolha e também quando se acompanha, de maneira transparente e limpa, a atuação dos representantes do povo. Neste sentido, a justiça eleitoral, juntamente com outros órgãos (a OAB, por exemplo) tem se dedicado bastante. Mas não se modifica uma cultura política do “toma lá, dá cá” assim, de uma hora pra outra. Isto requer tempo, paciência e determinação. São louváveis as iniciativas da justiça em coibir abusos no que diz respeito à disputa eleitoral, principalmente sobre a venda e compra de votos. Um fato que nos envergonha.

Quem compra voto visando apenas um cargo público já começa errado e não tem capacidade moral de dirigir a sua própria vida, que dirá a de uma nação, de um estado ou município. O que fará com o dinheiro público depois de eleito? Quem compra voto é um péssimo candidato, pois não sabe e nem consegue convencer seus eleitores que ele tem as melhores propostas.

Mas é criminoso também quem vende seu próprio voto. O eleitor que vende a sua consciência está também cometendo um delito, uma falcatrua, roubando a si mesmo. Diante das dificuldades financeiras pelas quais passa, lança mão desse recurso. Eleitor desonesto gera políticos desonestos e legitima a corrupção. Por isso, o papel importante da justiça em fiscalizar e punir os compradores e vendedores de voto, mesmo aqueles que têm melhores condições querem se beneficiar do momento “tirando uma casquinha”.

Etimologicamente, “Democracia” é o povo no poder. Só é possível vivê-la plenamente quando o povo tem consciência deste encargo e quando, acima de tudo, sabe ocupar o seu espaço, não ficando a mercê apenas das oligarquias elitizadas e burguesas que controlam a política. Sabiamente, o povo politizado exige os seus direitos, cobra políticas públicas eficazes e tem em mente que é o verdadeiro dono do poder, que o governante é na verdade o seu funcionário pago com os tributos para trabalhar em beneficio de todos.

Dia 05 de outubro é dia de festa, a festa da Democracia. Vivamos este momento sem ódio, sem mentiras e sem falcatruas. Que todo cidadão seja respeitado e que seja resguardado o seu direito de votar consciente e livremente. É hora de fazer valer nosso direito de expressar em quem e em que acreditamos, buscando sempre a valorização daquilo que é do bem-comum.

Que Deus nos ilumine, nos assista neste momento! E que tenha compaixão de todos nós, principalmente daqueles que sabem fazer uma política verdadeira e honesta.

* Teólogo, Geógrafo e Professor.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

SER CRISTÃO HOJE

CRISTÃO NO MUNDO DE HOJE.
* Eraldo Amorim

Ser cristão no mundo de hoje é o tema deste artigo, de fundamental importância para os cristãos; Mas também é uma reflexão que a Igreja vem fazendo no decorrer de sua história, levantando questões, enfrentando obstáculos e acima de tudo anunciando o evangelho mediante os tempos que lhes impõem incertezas, descrença em Deus e no próprio Homem.
O que significa ser cristão hoje? Vale a pena ser cristão? Quais os novos questionamentos que mundo moderno impõe ao ensinamento de Cristo e consequentemente ao da Igreja? Como nós, cristãos de hoje, nos posicionamos diante das novas tentativas de qualificar o cristianismo como uma mera filosofia ultrapassada? O que ainda nos faz confessar Cristo como Senhor e Fundamento da nossa fé? É uma opção pessoal, livre e consciente? Ou é apenas mais um fator cultural e externo que nos faz abraçar a fé Naquele que se diz “enviando do Pai”? São questões para a nossa reflexão e que deve nos inquietar diante de tantos desafios.
Uma vez Jesus chegou à região de Cesaréia de Filipe e perguntou aos discípulos o que o povo pensava sobre Jesus (Cf. Mt 16, 13 – 20). A resposta foi plural e por isso mesmo uma verdadeira confusão. O povo não sabia de fato quem era Jesus, não havia segurança e discernimento. Confundiam Jesus com João Batista, Elias, Jeremias “ou alguns dos profetas” do Antigo Testamento. Em seguida, Jesus perguntou aos próprios discípulos: “E vocês, quem dizem que eu sou?”. Hoje Jesus nos faz esta mesma pergunta. Quem é Jesus para nós? Para os não cristãos Jesus é apenas um homem admirável, um profeta que passou a vida fazendo o bem e que por isso pode ser igualado com figuras históricas da humanidade e de até com fundadores de outras filosofias religiosas orientais. Mas no interior da própria comunidade cristã encontramos muitos cristãos, homens e mulheres batizados, que pensam que Jesus não passa de um profeta, um ser simples e com grande sabedoria. E assim, tem-se o perigo de confundir Jesus como um mágico, alguém que desceu dos céus para resolver todos os nossos problemas, não assumindo assim o seu projeto de vida.
Hoje mais do que nunca precisamos redescobrir o real significado do “ser Cristão” num mundo pluralista e que nos apresenta novos deuses, novos encantos e nos distancia cada vez mais da essência do cristianismo que Jesus veio propagar. Filosofias religiosas diversas, globalização do pensamento religioso fundamentado no imediatismo, triunfalismo, individualista e longe do próximo, eis o terreno no qual o cristão está segurado e que muitas vezes se torna alheio aos problemas coletivos da sociedade; numa falsa espiritualidade que não olha em volta na intenção de ter um olhar crítico para uma mudança na estrutura que o cerca.
Não restam dúvidas de que o mundo pós-moderno nos trouxe grandes conquistas. O homem conseguiu evoluir no conhecimento científico e tecnológico. São inegáveis as contribuições da medicina para a qualidade de vida da humanidade. Não podemos esquecer do desenvolvimento nos setores de comunicação, de transporte e de produção de alimentos. Todos esses avanços foram conseguidos graças a inteligência do Homem, dávida de Deus. Mas o que vemos é uma profunda desigualdade na utilização desses recursos. Ao mesmo tempo que o Homem cria o antibiótico e descobre novos planetas, recusa dividir o que tem com os famintos e inventa a arma nuclear. Cresce cada vez mais a exploração do Homem sobre o Homem; e do Homem sobre a Natureza.
Adverte-nos o Documento de Aparecida (§ 61): “A globalização, tal como está configurada atualmente, não é capaz de interpretar e reagir em função de valores objetivos que se encontram além do mercado e que constituem o mais importante da vida humana: a verdade, a justiça, o amor, e muito especialmente a dignidade e os direitos de todos, inclusive daqueles que vivem à margem do próprio mercado”. Cresce em nosso meio a concorrência entre as pessoas, denúncias de corrupção, a violência e o narcotráfico, os assaltos, seqüestros e os assassinatos se tornaram freqüentes, a fome ainda assola grande parte da população brasileira e mundial, avanços de doenças e epidemias, desestruturação familiar, hedonismo, além dos desastres ecológicos (aquecimento global, queimadas, poluição dos rios e oceanos, matança de animais, biopirataria).
Diante de todos esses problemas Jesus continua nos perguntando: “E para vós (discípulos meus) quem eu sou?”. A resposta de Pedro é reveladora e fiel: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”. É uma resposta que revela a verdadeira identidade de Jesus e por isso Pedro se torna “pedra” de uma nova construção - a sua Igreja – comunidade dos convocados a construir uma nova sociedade, baseada no amor e na justiça. É para isso que serve a Igreja: dar testemunho vivo Daquele que nos redimiu, que passou a vida fazendo o bem, curando a todos os enfermos e libertando os mais necessitados.
Continuando a leitura de Mateus (21 ss), percebemos que esta missão da Igreja não acontece de qualquer maneira ou ao nosso modo de pensar. Pedro é repreendido por Jesus e por não entender a verdadeira missão é chamado de Satanás (inimigo) e de pedra de tropeço. A Igreja deve no mundo ser continuadora da missão de Jesus e por causa disso sofrer, doar a vida. “Quem quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz, e me siga”. Jesus não prometeu vida fácil e triunfalismo, mas cruz – aquela que redime e salva.
A missão do discípulo de Jesus - ontem, hoje, amanhã e sempre - tem gosto de cruz. Mesmo diante de tantas dificuldades e obstáculos, em meio a tantas perseguições e indiferenças, o cristão de hoje deve ter a certeza de que Jesus não abandona aquele que ele mesmo escolheu. Recorremos novamente ao Documento de Aparecida (§ 134): “Como discípulos e missionários, somos chamados a intensificar nossa resposta de fé e anunciar que Cristo redimiu todos os pecados e males da humanidade, ‘no aspecto mais paradoxal de seu mistério, a hora da cruz. O grito de Jesus: ‘Deus meu, Deus meu, por que me abandonastes? ’ (Mc 15, 34) não revela a angústia de um desesperado, mas a oração do Filho que oferece a sua vida ao Pai no amor para a salvação de todos”.
Mediante a fé no Cristo morto e Ressuscitado, o cristão de hoje deve cultivar a esperança e lutar para que o mundo seja cada vez melhor, não perdendo de vista o ensinamento do Mestre e nem tentando viver a missão do seu jeito, numa atitude egoísta, mas buscando viver em comunhão com Deus, consigo mesmo, com a Igreja e com os irmãos, alicerçando a sua fé no único fundamento que é Cristo Jesus.
Sem medo de se misturar ao mundo como fermento na massa (Cf. Mt 13, 33), o cristão moderno dialoga com aqueles mais afastados, busca a ovelha perdida (Cf. Lc 15, 6), se integra aos assuntos da política, da economia, das artes e do esporte, não se cala diante das injustiças e não se permite ficar calado diante da dor de tantos irmãos que sofrem. A missão do cristão batizado é ser um novo Cristo na realidade histórica que o cerca, fazendo a vontade do Pai (Jo 5, 30 ; 6, 39 s).
Portanto, ser cristão não é simplesmente como torcer por um time de futebol, ou partido político, mas ser sal e luz do mundo (Mt 5, 13ss), abraçando a cruz e espalhando o amor e a paz que Cristo nos oferece. Sejamos cristãos, missionários do Senhor, para que o mundo seja melhor e que a humanidade reconheça que sem Deus é impossível caminhar e ser feliz.
Estejamos preparados para momentos difíceis na vida, sem jamais perder o ânimo e a segurança no Senhor. Como diz São Paulo, nada nos afastará do amor de Deus, nada poderá nos desviar dos seus caminhos e da sua misericórdia (Rm 8, 35ss). Mesmo que as dificuldades sejam muitas, que tentem sucumbir os valores cristãos, mesmo que morte esbanje o seu falso poder e semeie a discórdia, nunca devemos fraquejar ou desesperar. Tenhamos ânimo, força e coragem (Jo 16, 33), pois Cristo venceu. Ele é a nossa segurança e o nosso refúgio.
(Campina Grande, 30 de agosto de 2008).
* Teólogo, Geógrafo e Professor.

terça-feira, 22 de julho de 2008

PEDAÇOS HUMANOS EM LIXÃO DE CAMPINA GRANDE.

Pedaços de corpo humano no lixão: o homem aos pedaços!

Eraldo Amorim.

Mais um carro de coleta de lixo urbano chega ao lixão de Campina Grande. É dia 10 de julho de 2008 e como de costume despeja seus resíduos. Ao encontrar um saco fechado e ao abri-lo, uma catadora se depara com algo macabro e inusitado: cerca de 200 pedaços humanos cortados, provavelmente de uma mulher. O caso é denunciado e em seguida se cria especulações: seria mais um crime a desvendar? O IML encaminha o achado para perícia e com menos de uma semana já se confirma que os restos mortais são lixo hospitalar, provenientes de amputações, só não se sabe de qual Hospital saiu o tal material, e justamente para um lugar que não deveria ter ido.
Quem praticou este ato não pensou nas conseqüências que poderia causar, ou no mínimo não tem noção da gravidade ambiental, e muito mais do que isto, não apresenta a mínima noção de ética profissional. É decepcionante, em se tratando de um conhecedor da área de saúde e da sua legítima importância para a sociedade.
Este é um fato que merece repercussão nacional. É mais um atentado contra a saúde pública. Todos nós sabemos que o melhor ou o mais correto destino para o devido lixo seria incinerá-lo, de forma discreta e respeitosa. Mesmo se tratando de partes de corpo doente, necrosadas ou não continuam sendo partes humanas. Não é o todo, mas parte do todo. Sem falar que por traz de cada órgão ou membro dilacerado pela enfermidade, existiu alguém que passou por sofrimentos e teve uma história de vida.
Não é hora dos órgãos públicos (curadoria do Meio Ambiente e a Secretaria de Saúde) investigarem e punirem os culpados pelo descaso ocorrido? Pois além de serem restos humanos tratados como algo qualquer, o referido fato demonstra que, em parte, o lixo hospitalar não está sendo tratado com seriedade, como prevê a lei ambiental, e que deve encarado como resíduos que podem causar sérios danos ao meio ambiente e pôr em risco a saúde pública. Foi um ato irracional e no mínimo incompetente de quem o praticou.
Esperamos que, fatos como estes, não ocorram novamente, pois isso representaria, mais do que vem acontecendo, uma banalização da violência contra aquilo que temos de mais sagrado, o nosso corpo. Diante de tudo isso até que ponto nós estamos valorizando a ética profissional e respeitando os direitos do cidadão e cumprindo as leis ambientais vigentes? Ou ainda, será que o fato ocorrido no lixão de Campina Grande, bairro do Multirão, não nos remete a um pensamento social e filosófico a respeito da vida e do corpo?
Pensemos sobre isto.
Geógrafo, Teólogo e Especialista em Meio Ambiente (15 / 07 / 2008).

TRABALHO INFANTIL

Trabalho Infantil, uma Vergonha Nacional

Eraldo Amorim.

No Brasil, o trabalho infantil ainda continua sendo um grande desafio social, uma mazela a ser combatida. Entra governo e sai governo, e tudo termina sem que um problema que vem deste o período do Brasil Colônia, quando crianças indígenas e africanas eram submetidas a trabalhos forçados, seja encarado de forma séria e responsável.
Devido às condições sócio-econômicas da maioria do povo brasileiro, criou-se uma falsa concepção de que começar a trabalhar cedo é sinônimo de honestidade, compromisso e de um futuro melhor. Esta afirmação tem certo teor de verdade. Quem não conhece alguém que durante a infância trabalhou para ajudar em casa e que na fase adulta tornou-se uma pessoa trabalhadora e até mesmo bem sucedida? O fato é que no passado o mercado não era tão competitivo, as exigências eram outras e o contexto social e econômico era totalmente adverso. Anos atrás a educação pública era de boa qualidade e, além disso, o adolescente podia facilmente conciliar o serviço com o seu horário escolar. Atualmente, diante de um contexto globalizado, excludente e cada vez mais exigente em que vivemos, é difícil para um jovem conciliar escola e trabalho. Salários baixos, alto custo de vida e novos objetos e formas de consumo que grande parte dos jovens consumidores não consegue acompanhar, a opção ficou restrita a uma escolha que poderá acarretar conseqüências para o resto da vida. E assim, ainda em fase de crescimento físico e psicológico, o individuo é instigado a trabalhar para ajudar a manter a casa.
São muitos os motivos pelos quais o trabalho infantil vem crescendo no Brasil, e principalmente no Nordeste. Tanto na zona rural quanto na zona urbana, o problema é preocupante. Em muitos casos os pais atravessam momentos difíceis, como por exemplo, cumprindo pena em regime fechado em presídios, encontrando-se desempregados, doentes, ou até mesmo trabalhando na economia informal para sobreviver. Os filhos são forçados a deixar a escola e entrar no mundo do trabalho, diminuindo assim uma possível ascensão social e aumentando o desinteresse pelos estudos.
Na realidade, o que se percebe é a falta de políticas públicas que impeçam crianças e adolescentes a enveredar por este caminho, que na maioria das vezes são exploradas e induzidas a realizar “trabalhos” ilícitos como a prostituição e o tráfico de drogas. Mas apenas isso não basta. Toda a sociedade tem que começar a compreender que lugar de criança é na escola, mas uma escola de qualidade, que cultive no aluno o interesse, que dê aos profissionais da educação meios e condições de acompanhar, formar, desenvolver e preparar as crianças e os adolescentes para o mercado de trabalho. Dá esmola em semáforo, comprar amendoim torrado em plena madrugada a uma criança, ou ainda engraxar sapato numa praça movimentada, não resolvem nada. O Estado, assim como a família, tem que fazer a sua parte. Não adianta também construir presídios ou casas de recuperação para menores de infratores, se não há uma mínima estrutura de readaptação à sociedade.
“A melhor escola é a vida”, diz o ditado popular. Embora esta afirmação tenha um pouco de fundamento e esteja se referindo ao ensino informal, nenhuma instituição por mais avançada que seja não substitui uma boa escola de ensino formal e familiar, estas são os alicerces do caráter, os fundamentos daqueles valores que levaremos por toda a vida. Falta o resgate da dignidade humana, valorizar mais a Escola e a Família, como lugares privilegiados de formação do cidadão e da cidadã. A Escola, principalmente a pública, tem que ser transformada em lugar atraente. O Ideal seria uma instituição que oferecesse diversas formações (profissionalizantes, artes e esporte) e o fundamental: apoio à família dos mesmos. Dando-lhes total apoio e assistência social e financeira. Assim, de fato, estaríamos combatendo o trabalho infantil e não apenas instigando discursos demagógicos que não resolvem nada.

Geógrafo, Teólogo e Especialista em Meio Ambiente (15 / 07 / 2008).

sexta-feira, 20 de junho de 2008

PROIBIÇÃO DE FOGUEIRAS??

“São João sem vender lenha para fogueira!”
Por uma cultura em defesa do Meio Ambiente.

*Eraldo Amorim

Mais uma iniciativa louvável do Ministério Público é a proibição da venda de lenha destinada à queima no período junino. Mesmo levando em consideração o aspecto cultural e religioso, muito mais o primeiro do que o segundo, esta liminar da justiça reforça a preocupação e a atuação dos órgãos públicos pela preservação do Meio Ambiente, preocupação esta que deve ser de todo cidadão e cidadã. Há muito tempo que os nossos festejos juninos já não são mais os mesmos, que as nossas quadrilhas não têm os mesmos compassos, e que boa parte do forró que faz sucesso é um “produto enlatado” de péssima qualidade, fazendo apologia à pornografia, à prostituição e ao uso da bebida. O pior cego é aquele que não quer ver.
Os textos bíblicos, pelo menos os canônicos, não relatam em nenhum versículo a existência de uma fogueira para anunciar o nascimento de João Batista, muito menos durante o evento martírio de São Pedro e São Paulo, ou no instante da morte de Santo Antônio. Por isso afirmo que a Tradição de acender fogueira é muito mais um aspecto cultural, antropológico, do que teológico e bíblico. Sendo assim, a Igreja não tem dever nenhum em se pronunciar a favor de tal costume, até mesmo porque a Tradição Cristã Católica sai em primeiro lugar em defesa da vida, inclusive da fauna e da flora. Deve-se perceber que o discurso religioso sobre este assunto vem à tona com maior facilidade e repercussão. Por que outros temas, cujos fundamentos teológicos e bíblicos, que são defendidos pela Igreja não causam tanto alvoroço?
É bom lembrar que em 2007 a Campanha da Fraternidade refletiu sobre a Amazônia e sobre todos os problemas que envolvem a degradação do Meio Ambiente. Qualquer iniciativa que venha somar ao propósito de preservar a natureza deve ser acolhida com entusiasmo e alegria, mesmo que cause mudanças na concepção cultural, pois a Amazônia é aqui, é o nosso lar, o nosso bairro, nossa Terra.
Nenhuma cultura, por mais milenar que seja não é estática, mas sim, dinâmica. Dessa forma, deve-se enquadrar de acordo com a realidade. Segundo estudos da Embrapa Algodão, 65% do estado da Paraíba estão se transformando em deserto, ou seja, se tornando impróprio para o cultivo. Fatores como o aquecimento global, a criação de animais e a agricultura (não acompanhados de técnicas adequadas de manejo), além do desmatamento desenfreado, estão aumentando a desertificação, não somente em nosso estado mais em boa parte da região nordeste.
Portanto, não podemos nos dar ao luxo de, em pleno processo de aquecimento global e desastres ambientais cada vez mais globalizados e catastróficos, desmatarmos a mata nativa e queimar lenha em nome de uma tradição que pode ser mudada, dependendo do grau de consciência da população. Já bastam as panificadoras, as carvoarias e as olarias que queimam lenha o ano inteiro em seus fornos.
Outro fator que não podemos deixar de ressaltar é que a fumaça liberada pela queima de madeira (CO2) causa danos irreparáveis à saúde humana. Hospitais ficam superlotados de crianças e idosos com problemas respiratórios, isto sem falar no caos do tráfego aéreo por conta da invisibilidade por milhares de quilômetros.
A crítica recai sobre esta liminar, no que diz respeito à maneira como se propõe a mudança. Pensa-se que o melhor caminho seria através do diálogo e da conscientização. Mas na realidade, a situação ambiental é desastrosa e não podemos esperar. Esta medida é, a curto prazo, uma maneira de coibir, desde já, as causas dos desastres ecológicos, baseando-se na certeza de que a população irá a logo prazo se conscientizar do grave problema que enfrentamos.
Campanhas educativas nas escolas, nas igrejas, nas SAB´s – Sociedades de Amigos de Bairro, nos meios de comunicação (...) podem ajudar bastante nesta luta. Precisamos aprender de uma vez por todas que os recursos naturais são finitos e que estão chegando ao fim, de maneira rápida. Quando derrubamos uma árvore, inconscientemente e sem pensar num reflorestamento, estamos também matando várias espécies de pássaros, insetos e animais provenientes da flora e da fauna, daquele bioma. Nenhuma cultura deve estar acima da dignidade da Criação.
Façamos do nosso “São João” um evento em favor da vida: sem fogueira e sem balão! Sem mortes e sem destruição. Mudemos a maneira de lidarmos com a natureza e com os seres vivos que lhes pertencem. Assim, será a nossa melhor homenagem aos santos juninos!

*Teólogo, geógrafo e especialista em Meio Ambiente. (16 / 06 / 2008).

LEGALIZAÇÃO DA MACONHA!

“Marcha pela Maconha”. Era só o que faltava!!!

* Eraldo Amorim

Parece que não tem mais o que se inventar, nem o que ser reivindicado no que diz respeito aos direitos do cidadão brasileiro. No último mês de maio, um grupo de indivíduos sem ter o fazer e nem o que defender, alastrou uma idéia nada mais que intransigente e perversa na intenção de legalizar o uso da canabis sativa, a maconha.
O movimento pró-maconha tem a intenção de promover a marcha pela descriminalização em dez cidades brasileiras. Em Salvador foi suspensa por uma liminar da justiça. Em João Pessoa, capital que estava cotada para ser palco deste evento também foi impedida. O juiz de direito, André Ricardo de Carvalho Costa, fazendo uso dos seus poderes e do bom senso suspendeu a tal marcha descabida.
Uma das alegações para que seja estabelecida a legalização do consumo da maconha é que a ela causa menos mal a saúde do que o álcool e o cigarro. Outra justificativa consiste no fato de que os usuários dessa droga são tratados como criminosos e, dessa forma, mal vistos pela sociedade. Eticamente, qualquer droga, seja ela qual for legal ou ilegal (exceto os medicamentos devidamente utilizados sob prescrição médica), é um grande mal para a sociedade e para a saúde humana. Por outro lado, a Maconha está cada vez mais se popularizando entre as camadas mais elitizadas da sociedade. Cresce o número de artistas, profissionais liberais, médicos e até mesmo políticos, gente de boa reputação e destaque social que afirmam sem receio que usam ou que já experimentaram a canabis, esbanjando a falsa impressão de que fumar faz bem e que é sinônimo de status e liberdade. O que se esconde por trás desse ato é o desejo de fugir da realidade e dos problemas existenciais, uma maneira de matar a ansiedade e encontrar um refúgio para “descarregar” o estresse da vida cotidiana.
Sabe-se que antigas civilizações utilizavam a maconha como instrumento de cura e calmante, mas não se sabe efetivamente quais os efeitos terapêuticos desta erva, pois são mais de 400 substâncias existentes e suas pesquisas são inconclusivas.
Segundo o relatório da ONU, há 144 milhões de usuários espalhados pelo mundo. No Brasil, houve um crescimento no consumo dessa droga em torno de 2,8% a 7,6% entre os anos de 1987 a 1997, e o que é pior, entre os jovens de 10 a 19 anos. Estudos revelam que o consumo da maconha aumenta 56% de possibilidade de consumo de outro tipo de droga. Ou seja, é uma porta de entrada para drogas mais pesadas como a heroína, LSD, cocaína e o crack, que leva milhares de vidas à escravidão e à dependência química, num caminho muitas vezes sem volta. Muitos jovens que encontram satisfação no primeiro trago de um cigarro de maconha acabam, pelo uso contínuo, sob o domínio do vício. Sem querer fazer julgamento aos usuários da droga, a maconha é sempre uma estrada que não leva a lugar algum a não ser à destruição dos valores positivos do caráter do ser humano, tão escassos hoje em dia. Defender a legalização dessa droga, negligenciando outros direitos como educação, saúde, segurança e o direito a uma vida digna do cidadão, é uma atitude no mínimo irresponsável e inconseqüente.
Na família, os pais são os que devem estar atentos ao comportamento dos seus filhos, quais os lugares que freqüentam e com quem costumam andar, para que depois não venham a sofrer pela a omissão. O drama dos viciados é o drama de toda a família, todos sofrem. O vício das drogas conduz a distúrbios psicológicos desastrosos e é totalmente danoso à estrutura social da família e do meio na qual está inserida, a sociedade. Então, é hora de repensarmos sobre a legalização de drogas que matam pessoas mundo afora. A bebida, por exemplo, é a causa principal de assassinatos e de acidentes de trânsito.
Investir na educação dos jovens e os adultos para que defendam a vida é o melhor caminho, e não aumentar ainda mais o problema legalizando drogas que pervertem a conduta dos indivíduos. Os meios de comunicação (principal formadora de opinião), as instituições religiosas, as escolas (com seus educadores bem informados e formados), devem se unir na construção de uma sociedade mais salutar, sem violência, sem mentiras e sem mortes fúteis e inúteis. Que os jovens aprendam a valorizar a vida, ter esperança e a confiar na própria família.

* Teólogo, geógrafo e especialista em Meio Ambiente. (15 / 06 / 2008)