sábado, 12 de setembro de 2009

PARAIBANO PERDE MAIS DE 15 ANOS DA VIDA POR CAUSA DE VIOLENCIA E SAÚDE

Por André Gomes

A violência e outros fatores sociais e de saúde diminuíram os anos de vida dos paraibanos em 15,4 anos para os homens e 10,3 anos para as mulheres quando a expectativa de vida no estado é de 70 anos, o que representa uma diferença de 5,1 anos entre os dois sexos. Apesar do dado, houve uma redução nos anos de vida perdidos, num período de nove anos, entre os anos de 1996 e 2005. No ano de 1996 o número de anos perdidos chegava a 17,8 entre os homens e 13,5 entre as mulheres. Entre os estados nordestinos, a Paraíba fica atrás apenas do estado de Alagoas com 19,6 em 1996 e 17,2 em 2005.
Segundo dados da pesquisa, a violência ainda é o maior causador da diminuição do número de anos de vida no Estado com um percentual de 3,5% do total da população. Outros fatores como doenças infectocontagiosas e parasitárias representam 1,8%, aparelho circulatório com 1,8% e mal formações congênitas com 0,2%. O excesso de mortes afetam, principalmente, as regiões e setores sociais mais desfavorecidos, mas que podem se evitadas, via ampliação de programas de atenção básica preventiva na área de saúde pública, maior oferta de saúde e universalização dos serviços de saneamento básico.

fonte: JORNAL DA PARAÍBA (03 / 09 / 2009)

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

POR UMA GEOGRAFIA CULTURAL
*Eraldo Amorim
A ciência geográfica realmente tem evoluído. Esta afirmação anos atrás poderia não ser aceita, refutada ou até mesmo ser impossível. Mas é um fato não apenas para a Geografia como também para todos os ramos do conhecimento, sendo muito difundida a integração entre eles. Hoje podemos conceber a Geografia como a ciência que estuda não apenas a Terra com suas características físicas, mas acima de tudo a ação do homem no espaço, marcada pelo progresso, construção, destruição, e impulsionada por suas mais variadas expectativas, transcorrendo pelo âmbito social, político e econômico.
De fato, a Geografia Cultural, ou Geografia da Cultura, tem dado passos significativos no Brasil, precisando ainda evoluir e ser bem aceita pelos pesquisadores desta área. Estudando os costumes da época de um determinado povo, sua cultura e meio ambiente, podemos compreender a transformação do espaço, além de enriquecer a ciência geográfica, valorizando-a, sem desvirtuá-la do seu papel primordial. Aliados às outras ciências humanas como a Sociologia, Antropologia Cultural, História, Psicologia e Filosofia, os geógrafos adeptos da Geografia Cultural podem formular conceitos, ampliar o conhecimento sobre a humanidade e, consequentemente, sobre o espaço habitado e transformado pela sociedade de qualquer época e região na história.
Negar ou esconder a influência das Religiões, por exemplo, no processo de mudança e posse do espaço, é, no mínimo, subestimar este aspecto tão presente e marcante nas mais diversas sociedades, sejam elas antigas ou contemporâneas. O fato é que as Religiões nunca irão desaparecer do planeta, pois podemos comprovar que quanto mais os meios técnico-científicos evoluem, mais a visão religiosa se faz presente no inconsciente coletivo, afetando e transformando o espaço habitado. As Religiões estão em constantes mudanças, ampliando e atuando em outros territórios. Os efeitos dos seus dogmas e liturgias fazem do homem um ser capaz de atuar de forma individual ou coletiva, tendo assim, concepções do Sagrado, atuando em determinado espaço, ora profano, ora divino. Como tão bem nos afirma Zeni Rosendahl, professor Adjunto da UERJ (1997): “(...) É por meio dos símbolos, dos mitos e dos ritos que o sagrado exerce sua função de mediação entre o homem e a divindade. É o espaço sagrado, enquanto expressão do sagrado, que possibilita ao homem entrar em contato com a realidade transcendente chamada de “deuses” nas religiões politeístas e “Deus” nas monoteístas”.
No espaço sagrado também o tempo é sagrado. Em virtude de algumas datas marcantes e comemorativas muitas cidades espalhadas pelo mundo tornam-se por um determinado tempo um lugar atrativo, promovendo o desenvolvimento do turismo religioso. Aqui no Brasil esse deslocamento de pessoas com este fim é chamado de romarias, tendo em vista a romanização vivenciada no século XIX. Em alguns lugares, ou locais específicos em sua volta, é fácil detectar certos aspectos políticos e econômicos atuando conjuntamente. Assim acontece em cidades tais como: Juazeiro do Norte-CE (Juazeiro do Padre Cícero), Canindé-CE, Aparecida-SP, Belém do Pará (Festa do Círio de Nazaré), Mossoró (Festa de Santa Luzia) e outras, onde a religião popular demonstra a sua capacidade de atuação e transformação do espaço. Meca, Jerusalém, Roma, Fátima, Lourdes, Pádua, Assis, além do Rio Ganges para os hindus, são alguns outros exemplos de Hierópolis (lugares urbanos sagrados), que só nos ajudam a compreender a Geografia Cultural como uma área cientifica importante e que deve ser cada vez mais reconhecida. “A geografia cultural é, em primeiro lugar e sempre, geográfica. Trata essencialmente da superfície terrestre, empregando métodos usados por todos os geógrafos. De fato, o geográfico que somente estuda áreas culturais, paisagens culturais ou ecologia cultural pode se denominar adequadamente de geógrafo cultural, mesmo que desdenhe temas conectados, pois o seu objeto é a superfície terrestre sob a influência da cultura” (Philip L. Wagner e Marvin W. Mikesell, 1962).
Entretanto, não somente as religiões atuam no espaço com seus templos, liturgias e devoções. São inúmeros os aspectos da vida social que transformam e se engajam no território geográfico cultural. Eventos esportivos e musicais, festas populares, feiras livres e outras manifestações culturais permanentes ou periódicas, também afetam o espaço geográfico com todas as suas complexidades, conflitos e adaptações. Estudar Geografia Cultural é levar em consideração que a Cultura é um elemento indispensável na construção do espaço, observando a sua dinamicidade e incorporação de outros elementos, tais como: políticos e econômicos.
Podemos concluir afirmando que ao estudarmos a Geografia, numa perspectiva Cultural, não estamos reduzindo-a ou igualando-a a outras ciências humanas, mas agregando valores importantes ao defendermos sua integração com outros ramos científicos. Ou seja, estudando melhor a Geografia sob o aspecto Cultural estaremos entendendo que o espaço em que habitamos é constituído por diversos fatores que se relacionam entre si.
Campina Grande, 17 de Agosto de 2009.
* Professor de Geografia.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

O USO DE SACOLAS PLÁTICAS


*Eraldo Amorim

Em tempo de urbanização, do consumo de produtos industrializados e do aumento desordenado dos resíduos sólidos, dentre outros desajustes ambientais, é muito importante colocar em discussão o uso de sacolas plásticas. Em tempos em muitos longínquos, nós íamos ao supermercado, à panificadora, ao açougue, à farmácia ou em qualquer estabelecimento comercial, e a embalagem era confeccionado com papel. No caso da panificadora, a maioria das donas de casa possuía “a sacola do pão”. Nunca ouvimos noticias de que alguém teria se infectado ou morrido ao ingerir alimentos transportados ou embrulhados em papel.
O fato é que, o costume da sacola de plástico nos foi imposto pelas grandes indústrias e redes de supermercados. Fato este que também foi absolvido pelas pequenas e médias empresas. O resultado está ai, o lixo inorgânico (aquele que não se deteriora facilmente na natureza) boa parte é composto por sacolas plásticas, aquelas que demoram mais ou menos 100 anos para se decompor.
Na Paraíba, felizmente, o consumo dessas sacolas tendem a diminuir. É que foram assinadas duas leis (8.855/2009 e 8.856/2009) que obrigam aos donos de estabelecimentos comerciais a substituírem as sacolas de plásticos comuns de polietileno, polipropileno e similares por sacolas reutilizáveis ou por embalagens biodegradáveis. As empresas terão três anos para se adaptarem. Mas estas leis não seriam necessárias se a população, se todos os cidadãos de boa vontade, começassem a mudar os hábitos de consumo e que também procurassem a cultivar antigos métodos de transporte das mercadorias compradas. Constata-se que a maior dificuldade destas leis está em fazer que o consumidor exija as sacolas biodegradáveis, ou seja, que ele tome consciência da importância destas para o Meio Ambiente. Mas isto, reconheçamos, levará um bom tempo. É que as tais sacolas plásticas são mais confortáveis e pertinentes, mesmo causando grandes prejuízos para o Meio Ambiente. O impacto ambiental é incalculável.
Ao comprar um comprimido numa farmácia, o atendente vai logo puxando uma sacolinha para assim agradar ao cliente. Outra vez, em um supermercado, ao comprar um simples estojo de barbear, se utiliza uma sacola que caberia uma cesta básica. Atos desta maneira precisa mudar. São pequenas atitudes que a Natureza agradece. Mas infelizmente no Brasil tudo que se diz respeito ao Meio Ambiente, precisa-se criar leis, punir. A cultura do “vamos gastar por que amanhã tem mais” impera no mundo globalizado e sem consciência ecológica.
A lei vem tarde demais para ajudar a diminuir o desastre ecológico gerado por um consumo irresponsável de sacolas plásticas. Na realidade, em nosso país, não existe uma política voltada para a educação ambiental, que pense em mecanismos de defesa do Meio Ambiente e na reciclagem. Somos um dos países mais consumista do mundo, porém, um dos piores no recolhimento e reaproveitamento (reciclagem) do lixo. Esta malesa precisa mudar. As prefeituras e os governos estatuais precisam criar aterros sanitários, e incentivar cooperativas e indústrias que trabalham com produtos recicláveis. As indústrias e as grandes empresas não podem continuar faturando sem terem responsabilidades para com os resíduos sólidos que elas mesmas criam e incentivam.
Mudemos, portanto, a nossa forma de consumir. Tomemos consciência do grande prejuízo que não apenas as sacolas plásticas causam ao planeta, mas sim todos os nossos atos de consumo exagerado, sem pensar nas gerações futuras.
Campina Grande, 06 de Julho de 2009.
* Teólogo , Geógrafo e Professor.

terça-feira, 30 de junho de 2009

FÁBIO DE MELO

* Eraldo Amorim
Vez por outra ele está em algum programa de televisão, cantando, dando conselhos, contando histórias, aumentando assim cada vez que aparece o número de fãs, admiradores, ou de futuros leitores dos seus livros. Livros estes de conteúdo de auto ajuda, misturado com versículos bíblicos. Ele está na mídia, seus shows atraem milhares de pessoas. Estamos nos referindo ao Padre Fábio de Melo, ex-religioso da congregação do Sagrado Coração de Jesus e que hoje faz parte da diocese de Taubaté-SP.
Não vamos aqui precipitadamente levantar julgamento sobre este jovem padre artista, esta não é a nossa intenção, mesmo porque dele mesmo não sabemos quase nada, mas da sua atuação no meio televisivo podemos pensar algo e tirar algumas conclusões.
Todos os cristãos batizados têm a missão de ser missionário de Jesus no mundo, este é o dever que nos atinge. Mais ainda tem esta missão um padre, homem consagrado a levar a fé e a doutrina onde estiver e onde for chamado a fazê-lo, principalmente aos pobres e necessitados. Todo padre que se preze tem que celebrar missa, abraçar os votos de obediência e castidade; e no caso de um religioso fazer o voto de pobreza, continuando assim, a missão que Jesus Cristo começou. Com certeza foi assim a formação do Pe. Fábio, passada pelos seus superiores e formadores, e é assim também a sua vida de comunhão eclesiástica.
É inegável a contribuição que o Pe. Fábio tem dado à Igreja católica brasileira, em tempos de evasão, crescimento das mais diversas tendências protestantes neopentecostais e da modernidade secularizada, que cultua uma religião sem compromisso e superficial, baseada numa espiritualidade voltada para o individualismo. Ele faz sucesso por falar a linguagem do momento, por falar àqueles que estão sofrendo na solidão, desamparados, carentes em todos os sentidos e que por viverem numa sociedade cada vez mais mecanizada não se realizam enquanto pessoas, não encontram a felicidade, e que em muitos casos não possuem uma fé madura suficiente.
Fábio de Melo age muito mais como um psicólogo de plantão do que como padre. Sua imagem e suas palavras confortadoras acalentam as mentes, além de ser um ótimo negócio para a indústria religiosa áudio-visual. Seus livros vendem como água, suas canções embalam todos os corações e atingem até os de outras denominações religiosas.
Mas diante disto tudo vale nos questionar: que Jesus este padre anuncia? Suas intenções podem ser as melhores possíveis, mas suas canções são burguesas, os seus livros estão longe de atingir as camadas mais populares, tanto pelo preço quanto pela linguagem. Portanto, o Jesus anunciado por ele estaria muito distante do Jesus Nazareno anunciado pelos evangelistas. Não seria o Jesus dos Shoppings Centers, das academias e das roupas de grife? A propósito, se suas canções fossem contrárias ao consumo e não esbanjassem tanto teor emotivo, estaria ele em programas de entretenimento, desses sem conteúdos, em tardes de domingo?
Bem que os tempos são outros e os meios de comunicação e a tecnologia propagaram cada vez mais concepções diversas sobre a realidade “Jesus de Nazaré”. Cada qual o cria ao seu modo, e retira dele o que mais incomoda e atrapalha. Mas o seu Testamento é permanente, não muda nunca, é eterno. Os métodos de evangelização podem avançar, mas o conteúdo (Jesus de Nazaré e o seu projeto) não poderá ser alterado. Tudo passa: a fama, o dinheiro, os shows, as músicas e as emoções; mas Jesus permanece.
Fábio de Melo é especialista em falar e tocar na sensibilidade das pessoas, mas não é capaz de fazer com que a proposta de Jesus e o compromisso com o seu projeto evangélico mudem a estrutura social em que vivemos. Ele é humano, tanto como nós, não é Deus, mas apenas o portador de sua mensagem, sujeito a erros e enganos assim como qualquer cidadão. Isto é o que os seus milhares de fãs precisam compreender.
O que deve nos preocupar ainda mais é que se comece a pensar que o seu jeito de orar, de cantar e de exercer a espiritualidade, seja a única forma eficaz de encontrar a Deus. Que este modelo é o único na Igreja Católica e fora dela. Devemos assim ficar atentos e não falar só com o coração mas aprender a desenvolver uma espiritualidade que caminhe junto com a realidade. Um olho no céu e outro na terra. A missão para ser verdadeira não deverá fazer pacto com nenhuma gravadora, editora de livros ou com audiência de programas de televisão, mas apenas com Jesus e com o seu projeto de vida, sem distinção de cor, classe social ou conhecimento intelectual.

Campina Grande, 30 de junho de 2009.

É PERIGOSO SER JOVEM NO BRASIL

Por Martha San Juan França
Homens com idade entre 15 e 24 anos são as grandes vítimas de morte violenta no país. Os especialistas dizem que a principal causa é a desigualdade econômica e social. Os jovens brasileiros estão morrendo cedo demais – e de maneira violenta. Pesquisas divulgadas nos últimos meses demonstram que a proporção de morte por homicídio e acidente de trânsito, as causas externas, é altíssima entre os jovens, uma das maiores da América Latina. Os índices de violência, de modo geral, são elevados em todo o continente – quatro vezes maior do que a média anual. Pior: as maiores vítimas de morte violenta são os jovens com idade entre 15 e 24 anos. No Brasil, a porcentagem de mortes por assassinato nessa faixa etária é 170% maior do que a de qualquer outra faixa etária. A probabilidade de um jovem brasileiro ser vitima de homicídio é 30 vezes maior que a de um jovem europeu e 70 vezes maior que a de um morador da Inglaterra, da Áustria ou do Japão.
Para especialistas, são vários os fatores que contribuem para esse triste recorde. Em primeiro lugar, é preciso considerar que a violência no Brasil é preocupante independentemente da idade das vítimas. Em três regiões do país – Norte, Centro-Oeste e Nordeste – a violência constitui a segunda maior causa de morte. No Sudeste e no Sul, ocupa o terceiro lugar. O maior risco é dos homens (adolescentes e adultos jovens), negros e residentes em grandes centros urbanos (...) os problemas de segurança pública têm relação com fatores e mudanças estruturais complexos que ocorreram no médio e no longo prazos na sociedade brasileira e devem ser levados em consideração na hora de estabelecer os programas destinados a combater a violência. Entre eles, falta de moradia, crescimento de favelas, precariedade dos serviços, somados à violência doméstica, frequentemente associada ao consumo de drogas e à desagregação familiar.
Um contingente significativo de jovens, geralmente pobres e moradores das periferias das grandes cidades, integra-se apenas parcialmente à sociedade. Estão longe de conseguir condições de vida adequadas e o aumento de renda, embora tenham crescido expostos às mesmas tentações da cultura de massa e imposições do consumo que outros jovens que se encontram no extremo oposto da pirâmide social. O resultado é uma combinação perversa: mais expectativas aliadas expectativas aliadas a menores condições de alcançar os objetivos constituem o pano de fundo da decepção do jovem. A válvula de escape para essa frustração é facilmente manipulada em direção à marginalidade e ao crime. Jovens que não conseguem espaço no mercado formal são aliciados pelos que comandam o tráfico. A possibilidade de ter um rendimento maior que o obtido com um trabalho formal funciona como um estimulo à entrada no mundo do crime. Frequentemente, a atividade é curta, interrompida pela morte ou pela prisão. O tráfico de drogas tem outro aspecto bastante difícil: a corrupção de parte dos policiais, que amplia a impunidade em todos os níveis.

FONTE: REVISTA ATUALIDADES, 1º Semestre de 2009.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

DOSSIE AGUA - III

DOSSIÊ ÁGUA – PARTE III
Por Thereza Venturoli

Muitos rios, acesso desigual. O Brasil é privilegiado em recursos hídricos. Mas falta muito para que toda a população tenha acesso à água limpa e a tratamento de esgoto. A acelerada urbanização, que colocou em 2008 mais da metade da população mundial em centros urbanos, faz com que aumente cada vez mais o volume retirado dos rios para abastecer residências e indústrias. Além de sobrecarregar as reservas, as populações das cidades estão sujeitas a consumir água de baixa qualidade, potencial responsável por doenças como cólera e diarréia. A parcela da população total que tem acesso à água limpa caiu de 84% para pouco mais de 70%, no mesmo período. Na Nigéria, a situação é ainda pior: a taxa de urbanização passou de 34% para 48%, mas o acesso à água de qualidade caiu de 80% para 68%. Isso por que as pessoas, ao saírem da zona rural, perderam acesso à água limpa, que não encontraram na cidade.
Com grande numero de rios e abundância de chuvas, o Brasil detém cerca de 13% de toda a água superficial do planeta. Mas toda essa água não é distribuída de maneira equilibrada: falta água na região do semiárido e nas grandes capitais do Sudeste. Cerca de 70% das reservas brasileiras estão na região Norte, onde vivem menos de 10% da população. 83% da população vive em cidades. Segundo o IBGE, 92,6% dessa população urbana é atendida por rede geral de abastecimento de água. É uma taxa alta, se comparada à da zona rural, que não supera os 28%. Os 74% dos brasileiros urbanos que não têm acesso aos serviços de abastecimento são obrigados a recorrer a poços, bicas, água de caminhões pipa – fontes que escapam do controle sanitário e podem chegar às casas contaminadas pelos vazamentos de fossas sépticas ou da rede de esgoto doméstico e industrial.
Mesmo na Região Norte, bem provida de recursos hídricos, a porcentagem dos habitantes de três capitais com acesso à rede geral de abastecimento é baixa: apenas 58,5% em Macapá (AP), 56% em Rio Branco (AC) e 30,6% em Porto Velho (RO). A cidade do Rio de Janeiro joga fora, sozinha, mais de 1,5 milhão de litros a cada dia – o equivalente a quase 620 piscinas olímpicas. Além disso, os 5,6 bilhões de litros de água lançados diariamente nas tubulações da Grande São Paulo colocam os mananciais próximos de seu limite de disponibilidade. Basta um breve período de falta de chuvas para a população se ver forçada a limitar o consumo, sob a ameaça de torneiras secas e racionamento de água. Na Grande São Paulo, menos de 25% do total de 56 metros cúbicos de esgoto produzidos a cada segundo recebe tratamento. Os restantes 42 metros cúbicos são despejados diariamente nos mesmos rios que abastecem os reservatórios de abastecimento.
Em alguns centros urbanos, 50% da população ocupa áreas irregulares e não tem acesso a serviços de água, coleta e tratamento de esgoto e coleta de lixo. Estima-se que a população favelada brasileira supere os 6,5 milhões de pessoas e deva chegar a 13,5 milhões nos próximos dez anos. Assim, a questão do acesso à água limpa torna-se um fator de exclusão social.

Fonte: Revista Atualidades, 1º Semestre 2009. Editora Abril.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

DOSSIÊ ÁGUA - PARTE II

DOSSIÊ ÁGUA – PARTE II
Por THEREZA VENTUROLI

A água que se usa em casa, aquela que sai de torneiras e chuveiros, representa uma pequena parcela de tudo o que cada cidadão consome – no total apenas 10% do consumo mundial. Para o consumidor doméstico, os restantes 90% vêm na forma de água invisível, dissolvida nos mais diferentes produtos e atividades. A agricultura é, de longe, a responsável pelo maior consumo de água. Cerca de 70% do que é extraído dos rios e aqüífero se destina à produção agropecuária. A fim de garantir safras de arroz, trigo e leite, o homem já reduziu a vazão de grandes rios em até 75%. A indústria é responsável pelos 20% restantes do consumo. Apesar de toda essa água ser captada e usada nas fazendas e na fábricas, uma parcela sempre chega a cada cidadão. O total de água consumida direta ou indiretamente por um individuo ou por toda uma população no decorrer de certo período recebe o nome de pegada hídrica. A pegada hídrica leva em conta não apenas a água agregada aos produtos, mas também o volume poluído na cadeia produtiva.
Entre 1997 e 2001, o comércio internacional transferiu de um país a outro algo em torno de 1 trilhão de metros cúbicos de água virtual por ano, apenas em produtos agropecuários. Se incluirmos aí os produtos industriais, o fluxo anual de água virtual superou o 1,6 trilhão de metros cúbicos. Desse total, 61% do volume viaja invisivelmente em grãos, e outros produtos vegetais, animais e derivados representam 17%. Os produtos industriais utilizam 22% - ou seja, 88% da água virtual transferida entres nações diz respeito diretamente à alimentação da humanidade. O Brasil está entre os maiores exportadores de água virtual do mundo, em companhia dos Estados Unidos, Canadá e França. Mas, como todas as demais nações, também importamos água virtual. O comércio internacional de água virtual democratiza o acesso à água, mas ameaça exaurir as fontes dos exportadores.
É lógico imaginar que os países com maior escassez hídrica apresentam maior saldo positivo no balanço comercial da água virtual – ou seja, seria de esperar que quem dispõe de menos água importe mais produtos e, assim, consuma mais água virtual estrangeira. É o caso de Kuweit, Arábia Saudita, Jordânia, Líbano e Israel, que, não tendo fontes suficientes para irrigar as plantações precisam importar alimentos. Por fim, uma vez que a agricultura consome muito mais água do que a indústria, as nações exportadoras de alimentos degradam suas reservas hídricas mais do que as industrializadas.
Pensar em cobrar pelo uso da água soa estranho. No entanto, em tempos de economia globalizada, em que os mercados se entrelaçam e ditam as regras, a crescente escassez é um argumento para transformar o bem natural em bem acessível apenas a quem possa pagar. Na verdade, o brasileiro não paga nada pela água. O valor da conta mensal refere-se aos custos de captação, tratamento e distribuição. A água em si, não tem preço.

Fonte: Revista ATUALIDADES, 1º Semestre 2009.