SEMANA SANTA
“Vão e preparem tudo para comermos a Páscoa”
(Lucas 22, 8).
* Eraldo Amorim
Depois de longo período de preparação, de expectativa e de reflexão em torno da Campanha da Fraternidade, chegamos a Semana Santa com um grande desafio: resgatar o seu significado maior, e transformá-la em dias de oração, nos remetendo àquela Páscoa em que o Filho de Deus encarnado percorre o caminho da cruz até o túmulo vazio, domingo da Ressurreição.
Na Semana Santa, conhecida também como Semana Maior, contemplamos a cruz que sustenta em seus braços o próprio Deus feito homem, que devido a sua condição humana, a sua missão profética e a sua obediência ao Pai incomodou poderosos do seu tempo, falou das coisas verdadeiras, iluminou a sociedade com sua luz e derrubou tabus que excluía. Veio nos oferecer sua Paz, e por isso morreu de forma tão violenta. Nossas atitudes o mataram, nossos pecados o fizeram sofrer.
Antes de chegar à glória, teve que passar pela cruz. ”Do mesmo modo como Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que o Filho do Homem seja levantado”. Linguagem difícil de compreensão em tempos da Teologia da Prosperidade, onde se promete estabilidade financeira, vitória fácil e uma vida sem problemas, só de vitórias. Negar ou esconder a cruz é impedir que a manifestação plena da missão de Jesus se revele. Pois sua vida foi de cruz e de glória ao mesmo tempo. Reflitamos, portanto, os aspectos centrais da Semana Santa.
Desde o período muito cedo de sua história a Igreja celebra os últimos dias de Jesus na terra atualizando o seu sofrimento, sua paixão, seu martírio na cruz até a glória da Ressurreição. A Semana Santa começa no Domingo de Ramos onde celebramos a entrada triunfante de Jesus em Jerusalém. O Mestre aclamado pelo povo como rei, caminha para o calvário sete dias depois. O povo que grita “Hosana! Salve! Bendito o que vem em nome do Senhor” é o mesmo que na sexta-feira manobrados pelos poderosos fariseus exclama “crucifica-o!”. O povo espera um Messias poderoso, forte e que com armas em punho derruba o sistema opressor. Jesus frustra a todos com sua atitude pacifica. Montando num jumentinho ele traz um novo messianismo. Vencer a estrutura pecaminosa com misericórdia e amor.
O Tríduo Santo começa na Quinta-feira, onde fazemos memória daquela ceia derradeira em que o Mestre se abaixa diante dos pés calejados e sujos dos discípulos para lavá-los, num gesto de extrema humildade e de serviço. “Dei-vos o exemplo, para que façais a mesma coisa que eu fiz” (Jo 13, 15). Para nós ali estava sendo celebrada a primeira missa, e sendo instituída a Eucaristia e o sacramento da Ordem. Jesus ainda vestido com o manto do serviço (avental), é levado a julgamento diante dos sacerdotes, do sinédrio, de Herodes e de Pôncio Pilatos.
Açoitado, corpo machucado e banhado de sangue revela a situação da humanidade. “Não tinha beleza nem atrativo para o olharmos, não tinha aparência que nos agradasse. Era desprezado como o último dos mortais, homem coberto de dores, cheio de sofrimentos: passando por ele, tapávamos o rosto; tão desprezível era, não fazíamos caso dele” (Is 52, 2-3). Contemplar Jesus crucificado é perceber o quanto somos fracos, pecadores e limitados. Jesus foi vítima da violência gananciosa das autoridades políticas e sacerdotais do seu tempo. Ele sofreu injustamente e sua paixão se prolonga ainda hoje nos sofridos deste mundo, nos excluídos do sistema econômico que oprime, mata e destruí os mais vulneráveis. O fato é que Jesus ainda hoje continua morrendo, suas chagas ainda se abrem em cada ser humano vitima da violência, das armas de fogo, dos acidentes de trânsito, em cada pessoa que morre sem assistência médica, vítima de um sistema de saúde falido.
Mas tudo esse sofrimento e sinais de morte não prevalecem até o fim. O rumo definitivo é o Sábado Santo, onde o canto do “exulte” rompe as trevas da nossa existência e ilumina com sua luz, a nossa condição miserável para nos introduzir novamente ao paraíso antes perdido e hoje desejado. “Ó noite em que Jesus rompeu o inferno, ao ressurgir da morte vencedor (...) Ó pecado de Adão indispensável, pois o Cristo o dissolve em seu amor”. A Vigília Pascal, é a “mãe de todas as vigílias”, celebrada sempre à noite, tem um significado todo especial.
O Ciclo Pascal se estende por cinquenta dias até a festa de Pentecostes. O Círio Pascal aceso em local de destaque nos remete à coluna de fogo que conduziu o povo pelo deserto até a libertação até a terra prometida e ao Cristo Ressuscitado e Vencedor.
Entretanto, bem sabemos que a Semana Santa vem sendo transformada em mais um evento em favor do comércio dos ovos de chocolate, do coelhinho dos presentes, dos vinhos caros e do bacalhau, sendo para muitos um simples “Feriadão”. Porém, cultivemos o espírito desta semana com o propósito de renovar em nós o significado maior da nossa existência e da nossa fé.
Com Maria, Nossa Senhora das Dores, percorramos o caminho da cruz e do martírio até chegar ao jardim da reconciliação, onde seremos interpelados: “Por que estais procurando entre os mortos aquele que está vivo?” (Lc 24, 5). Deixemos que a esperança tome conta de nós e que dissipe todo medo e angústia e que transforme a nossa realidade de dor e de pecado em luz e salvação.
* Teólogo, Geógrafo e Professor.
Campina Grande- PB
30 de março de 2009.
quarta-feira, 1 de abril de 2009
segunda-feira, 16 de março de 2009
IGREJA, EXCOMUNHÃO E MISERICÓRDIA
IGREJA , EXCOMUNHÃO E MISERICÓRDIA.
* Eraldo Amorim
Decidi aceitar o desafio de escrever sobre um assunto bastante delicado como este. Impulsionado por alguns artigos que li e por e-mails que recebi após os rumores de que o arcebispo de Olinda/Recife, teria excomungado a mãe e a equipe médica por permitir, amparados pela lei, de promover o aborto de gêmeos numa menina de nove anos, e que de maneira trágica teria sido violentada sexualmente pelo próprio padrasto, e por motivos biológicos poderia não levar a gravidez ao fim, podendo até morrer. O resto todos nós já sabemos. Este fato após repercutir mundialmente, o Vaticano e a CNBB se pronunciaram a favor de D. José Cardoso Sobrinho, “queimado” pela imprensa como sendo um arcebispo conservador, defensor doutrinário do Papa Bento XVI. Mas Houve uma reviravolta no caso. O presidente da Academia Pontifícia para a Vida, o arcebispo Rino Fisichella escreveu um artigo onde criticou a excomunhão. Falou-se em perdão, inclusão e misericórdia.
A palavra “Excomunhão” quer dizer fora da comum união (ex=fora), ou seja, é declarado excomungado aquela pessoa que não esteja de acordo com os princípios doutrinários da comunidade cristã. É bom deixar bem claro que a excomunhão é uma realidade que vem desde o inicio da Igreja (Mt 18, 15- 20; 1 Cor 5). Era a punição mais rígida que se poderia receber. Na Idade Média a excomunhão, por contexto histórico, foi muito aplicada para combater heresias, cismas, apostasia e até ataques a reis, príncipes e gente do clero. Como último recurso, o excomungado era imposto à fogueira da inquisição, pois só queimando o corpo teria a chance de purificar a alma.
A instituição católica tem a excomunhão ainda como forma de corrigir um eventual erro que venha atingir a integridade da religião e a dignidade da pessoa humana. Quando se pensa em excomunhão, é para o bem da própria pessoa, que uma vez não agindo conforme a doutrina do evangelho, e não atingindo o arrependimento necessário e permanecendo no erro pode ser condenada ao suplicio eterno (1 Cor 11, 27- 30). Excomungar é deixar a pessoa livre da doutrina, agindo conforme a sua consciência e não sob a doutrina cristã. Entretanto, excomunhão não é sinônimo de condenação, mas sim uma oportunidade para o arrependimento e consequentemente uma reabilitação na comunidade.
Esta é uma maneira de correção não entendida e não aceita pela modernidade secularizada e que só exige da Igreja atitudes que reforce a liberdade humana, sem compromisso, como se fosse tudo permitido. Na realidade busca-se vantagem em tudo, até da Igreja. Muitos de nós esperamos dela os sacramentos, celebrações pomposas, almejamos a Tradição pela tradição, desejamos adquirir status sociais, mas na hora de defender ou de viver a doutrina a acusamos de retrógrada, medieval, injusta e perversa. Ou seja, muitos só são católicos em busca da promoção pessoal e social, criando uma espiritualidade individualista e egoísta.
Por outro lado, não estamos mais na Idade Média, e a Igreja com seus dirigentes são suficientemente inteligentes para ter plena consciência disso. Os tempos mudaram e a teologia também se desenvolveu. Sendo a Igreja uma instituição de dois mil anos, tem o direito de expor a sua opinião sobre qualquer fato ou assunto. Mas no caso específico da menina de Pernambuco, a excomunhão foi totalmente contestada por se tratar de questão de vida ou de morte da infante. Grande desafio para a Igreja, que saiu em defesa das duas vidas que ainda iriam nascer sem olhar para a criança que já tem nove anos, e que tem como principio “os fins não justificam os meios”. Fato bastante delicado e que requer cautela e muito discernimento.
Em meio a grande polêmica que se formou, apelou-se para a misericórdia. É tempo da misericórdia, da graça e do diálogo (Lc 6, 36 – 38; Mt 12, 31; 2 Cor 2, 5 – 8). É missão da Igreja, testemunhar o amor infinito de Deus, e não espalhar medo e excluir aqueles que erram. Mas é também missão da Igreja defender a vida não importando as circunstâncias. Eis que o impasse está formado, a questão teológica continua. Quem poderá dizer como será o desenrolar desta questão? Desafio para os teólogos, médicos, cientistas e para todos os cristãos.
Campina Grande, 16 de março de 2009.
· Geógrafo, Teólogo e Professor.
* Eraldo Amorim
Decidi aceitar o desafio de escrever sobre um assunto bastante delicado como este. Impulsionado por alguns artigos que li e por e-mails que recebi após os rumores de que o arcebispo de Olinda/Recife, teria excomungado a mãe e a equipe médica por permitir, amparados pela lei, de promover o aborto de gêmeos numa menina de nove anos, e que de maneira trágica teria sido violentada sexualmente pelo próprio padrasto, e por motivos biológicos poderia não levar a gravidez ao fim, podendo até morrer. O resto todos nós já sabemos. Este fato após repercutir mundialmente, o Vaticano e a CNBB se pronunciaram a favor de D. José Cardoso Sobrinho, “queimado” pela imprensa como sendo um arcebispo conservador, defensor doutrinário do Papa Bento XVI. Mas Houve uma reviravolta no caso. O presidente da Academia Pontifícia para a Vida, o arcebispo Rino Fisichella escreveu um artigo onde criticou a excomunhão. Falou-se em perdão, inclusão e misericórdia.
A palavra “Excomunhão” quer dizer fora da comum união (ex=fora), ou seja, é declarado excomungado aquela pessoa que não esteja de acordo com os princípios doutrinários da comunidade cristã. É bom deixar bem claro que a excomunhão é uma realidade que vem desde o inicio da Igreja (Mt 18, 15- 20; 1 Cor 5). Era a punição mais rígida que se poderia receber. Na Idade Média a excomunhão, por contexto histórico, foi muito aplicada para combater heresias, cismas, apostasia e até ataques a reis, príncipes e gente do clero. Como último recurso, o excomungado era imposto à fogueira da inquisição, pois só queimando o corpo teria a chance de purificar a alma.
A instituição católica tem a excomunhão ainda como forma de corrigir um eventual erro que venha atingir a integridade da religião e a dignidade da pessoa humana. Quando se pensa em excomunhão, é para o bem da própria pessoa, que uma vez não agindo conforme a doutrina do evangelho, e não atingindo o arrependimento necessário e permanecendo no erro pode ser condenada ao suplicio eterno (1 Cor 11, 27- 30). Excomungar é deixar a pessoa livre da doutrina, agindo conforme a sua consciência e não sob a doutrina cristã. Entretanto, excomunhão não é sinônimo de condenação, mas sim uma oportunidade para o arrependimento e consequentemente uma reabilitação na comunidade.
Esta é uma maneira de correção não entendida e não aceita pela modernidade secularizada e que só exige da Igreja atitudes que reforce a liberdade humana, sem compromisso, como se fosse tudo permitido. Na realidade busca-se vantagem em tudo, até da Igreja. Muitos de nós esperamos dela os sacramentos, celebrações pomposas, almejamos a Tradição pela tradição, desejamos adquirir status sociais, mas na hora de defender ou de viver a doutrina a acusamos de retrógrada, medieval, injusta e perversa. Ou seja, muitos só são católicos em busca da promoção pessoal e social, criando uma espiritualidade individualista e egoísta.
Por outro lado, não estamos mais na Idade Média, e a Igreja com seus dirigentes são suficientemente inteligentes para ter plena consciência disso. Os tempos mudaram e a teologia também se desenvolveu. Sendo a Igreja uma instituição de dois mil anos, tem o direito de expor a sua opinião sobre qualquer fato ou assunto. Mas no caso específico da menina de Pernambuco, a excomunhão foi totalmente contestada por se tratar de questão de vida ou de morte da infante. Grande desafio para a Igreja, que saiu em defesa das duas vidas que ainda iriam nascer sem olhar para a criança que já tem nove anos, e que tem como principio “os fins não justificam os meios”. Fato bastante delicado e que requer cautela e muito discernimento.
Em meio a grande polêmica que se formou, apelou-se para a misericórdia. É tempo da misericórdia, da graça e do diálogo (Lc 6, 36 – 38; Mt 12, 31; 2 Cor 2, 5 – 8). É missão da Igreja, testemunhar o amor infinito de Deus, e não espalhar medo e excluir aqueles que erram. Mas é também missão da Igreja defender a vida não importando as circunstâncias. Eis que o impasse está formado, a questão teológica continua. Quem poderá dizer como será o desenrolar desta questão? Desafio para os teólogos, médicos, cientistas e para todos os cristãos.
Campina Grande, 16 de março de 2009.
· Geógrafo, Teólogo e Professor.
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009
QUARESMA, TEMPO DE MUDAR DE VIDA!
QUARESMA – EIS O TEMPO DE CONVERSÃO
* Eraldo Amorim
Desde o século II os cristãos celebram a Quaresma praticando o jejum, abstinência e períodos intensos de oração, tendo em vista a celebração da Páscoa. Na sua evolução histórica, a Quaresma, do latim “Quadragésima”, era o tempo litúrgico em que os fiéis se reconciliavam com a Igreja, ou seja, eram readmitidos na comunidade cristã e também se preparavam para receber o sacramento do Batismo. Os catecúmenos, provenientes do paganismo ou do judaísmo, faziam a sua preparação com atitudes que demonstravam adesão ao cristianismo.
Eram quarenta dias de jejum, exceto os domingos. No período quaresmal aos catecúmenos era exigido um permanente estado de renúncia e de adesão ao Cristo, professando a fé diante do Bispo e da comunidade reunida. A celebração do sacramento do Batismo ocorria na noite do Sábado Santo, quando podiam ser chamados de “fiéis”. Era, portanto, a pedagogia que passou a ser utilizada a partir do século IV, como forma de aceitação criteriosa dos novos cristãos.
De acordo com o antigo costume, o jejum consistia em apenas uma refeição diária, ao cair da tarde. Acrescentou-se, depois, a abstinência de carne e vinho, e em algumas regiões também a abstinência dos chamados lacticínios (leite, manteiga e ovos). Hoje, o exercício espiritual do jejum no tempo da Quaresma se resume apenas em dois dias, a Quarta-feira de Cinzas e a Sexta-feira da Paixão. Além do jejum, este tempo litúrgico nos propõe a esmola e a oração, como virtudes a serem exercitadas.
A Quaresma nos prepara para a grande festa da Páscoa. Faz referência aos quarenta dias em que Jesus jejuou no deserto depois do batismo no Jordão (Mt 4, 2; Lc 4, 1s). Faz alusão também aos quarenta dias em que Moisés jejuou no monte Sinai (Ex 34, 28) e o profeta Elias caminhou em direção ao monte Horeb (1 Rs 19, 8), e a caminhada do povo de Deus no deserto após a libertação no Egito.
Segundo o Catecismo da Igreja: “A tentação de Jesus manifesta a maneira que o Filho de Deus tem de ser Messias – o oposto da que lhe propõe Satanás e que os homens desejam atribuir-lhe. É por isso que Cristo venceu o Tentador por nós: ‘Pois não temos um sumo sacerdote incapaz de comparecer-se de nossas fraquezas, pois Ele mesmo foi provado em tudo como nós, com exceção do pecado’ (Hb 4, 15). A Igreja se une a cada ano, mediante os quarenta dias da Grande Quaresma, ao mistério de Jesus no deserto” (§ 540). Sendo assim, a Quaresma nos revela que mediante a obediência de Jesus no deserto nos tornamos fortes a superar as tentações do tempo presente, desde que estejamos dispostos a reconhecer as nossas fraquezas e buscar a conversão.
Assim nos adverte o apóstolo Paulo: “É agora o momento favorável, é agora o dia da salvação” (2 Cor 6, 2). Pois bem, a Quaresma é mais uma oportunidade de rever as nossas atitudes, as nossas concepções de mundo e de pensamento. Deus nos dá a chance de conversão, de mudança de vida, assim como é pregado no Evangelho: metanoia (Mc 1, 15).
“Revesti-vos do homem novo, criado à imagem de Deus, em verdadeira justiça e santidade” (Ef 4, 24). Entretanto, não é fácil mudar de vida, romper com as estruturas de pecado e de morte. Este tempo litúrgico, extremamente catequético, nos leva ao calvário, ao sofrimento e a entrega de si mesmo, deixando morrer em nós toda prepotência e fazendo renascer um novo ser humano. A cruz, tão reverenciada neste período, nos ensina a não apenas enxergar o Cristo glorioso, mas a contemplar e a viver o mistério da dor como forma de se chegar ao paraíso.
É no exercício quaresmal que aprendemos a abrir o coração, a quebrar o orgulho, a vaidade e a compreender que nesta vida tudo termina em pó, e que o que permanece são as nossas boas obras de justiça, amor e perdão. Embora a conversão, enquanto mudança de vida, não ocorra cem por cento, a quaresma suscita em nós um desejo de mudança, é exercício em busca do aperfeiçoamento espiritual, conseqüentemente, uma maneira nova de viver, de agir e de tratar o próximo. Como bem nos afirma a Ir. Yone Buyst, “quaresma é tempo de retomar o caminho do Evangelho, tempo de renovação, de ‘morte ao pecado’, para que possamos ressurgir para uma vida nova com Cristo na sua Páscoa. Quaresma requer sobriedade, não é tristeza, é despojamento, ares de deserto”.
Aqui vão alguns lembretes de como devemos viver este tempo. Em clima de retiro espiritual, nas celebrações não cantamos o Glória e nem o Aleluia; a brandura dos instrumentos nos convida a reflexão silenciosa; as flores não enfeitam o presbitério, pelo menos neste período; a cor roxa é sinal de sobriedade e recolhimento; a Via Sacra nos faz repensar sobre o valor da vida e do amor de Cristo na cruz; a aspersão no Ato Penitencial renova em nós os compromissos batismais e a Campanha da Fraternidade é uma provocação pessoal e comunitária sobre as nossas contradições e injustiças que abalam os céus e provocam a crucifixão de milhares de seres humanos ainda hoje.
Vivamos a quaresma de maneira intensa, cultivando os aspectos da vida comunitária e cristã sob a perspectiva da grande Vigília (Sábado Santo), onde, naquela madrugada, o túmulo vazio sinalizou para todos nós o inicio de um novo tempo. Renovando os nossos compromissos batismais, aspergidos com água que jorra para a vida eterna, sejamos cada vez mais anunciadores e promotores de uma sociedade mais justa, onde a cultura de morte não tenha vez e nem voz.
A todos uma feliz Quaresma!
Campina Grande, 18 de fevereiro de 2009.
* Geógrafo, Teólogo e Professor.
* Eraldo Amorim
Desde o século II os cristãos celebram a Quaresma praticando o jejum, abstinência e períodos intensos de oração, tendo em vista a celebração da Páscoa. Na sua evolução histórica, a Quaresma, do latim “Quadragésima”, era o tempo litúrgico em que os fiéis se reconciliavam com a Igreja, ou seja, eram readmitidos na comunidade cristã e também se preparavam para receber o sacramento do Batismo. Os catecúmenos, provenientes do paganismo ou do judaísmo, faziam a sua preparação com atitudes que demonstravam adesão ao cristianismo.
Eram quarenta dias de jejum, exceto os domingos. No período quaresmal aos catecúmenos era exigido um permanente estado de renúncia e de adesão ao Cristo, professando a fé diante do Bispo e da comunidade reunida. A celebração do sacramento do Batismo ocorria na noite do Sábado Santo, quando podiam ser chamados de “fiéis”. Era, portanto, a pedagogia que passou a ser utilizada a partir do século IV, como forma de aceitação criteriosa dos novos cristãos.
De acordo com o antigo costume, o jejum consistia em apenas uma refeição diária, ao cair da tarde. Acrescentou-se, depois, a abstinência de carne e vinho, e em algumas regiões também a abstinência dos chamados lacticínios (leite, manteiga e ovos). Hoje, o exercício espiritual do jejum no tempo da Quaresma se resume apenas em dois dias, a Quarta-feira de Cinzas e a Sexta-feira da Paixão. Além do jejum, este tempo litúrgico nos propõe a esmola e a oração, como virtudes a serem exercitadas.
A Quaresma nos prepara para a grande festa da Páscoa. Faz referência aos quarenta dias em que Jesus jejuou no deserto depois do batismo no Jordão (Mt 4, 2; Lc 4, 1s). Faz alusão também aos quarenta dias em que Moisés jejuou no monte Sinai (Ex 34, 28) e o profeta Elias caminhou em direção ao monte Horeb (1 Rs 19, 8), e a caminhada do povo de Deus no deserto após a libertação no Egito.
Segundo o Catecismo da Igreja: “A tentação de Jesus manifesta a maneira que o Filho de Deus tem de ser Messias – o oposto da que lhe propõe Satanás e que os homens desejam atribuir-lhe. É por isso que Cristo venceu o Tentador por nós: ‘Pois não temos um sumo sacerdote incapaz de comparecer-se de nossas fraquezas, pois Ele mesmo foi provado em tudo como nós, com exceção do pecado’ (Hb 4, 15). A Igreja se une a cada ano, mediante os quarenta dias da Grande Quaresma, ao mistério de Jesus no deserto” (§ 540). Sendo assim, a Quaresma nos revela que mediante a obediência de Jesus no deserto nos tornamos fortes a superar as tentações do tempo presente, desde que estejamos dispostos a reconhecer as nossas fraquezas e buscar a conversão.
Assim nos adverte o apóstolo Paulo: “É agora o momento favorável, é agora o dia da salvação” (2 Cor 6, 2). Pois bem, a Quaresma é mais uma oportunidade de rever as nossas atitudes, as nossas concepções de mundo e de pensamento. Deus nos dá a chance de conversão, de mudança de vida, assim como é pregado no Evangelho: metanoia (Mc 1, 15).
“Revesti-vos do homem novo, criado à imagem de Deus, em verdadeira justiça e santidade” (Ef 4, 24). Entretanto, não é fácil mudar de vida, romper com as estruturas de pecado e de morte. Este tempo litúrgico, extremamente catequético, nos leva ao calvário, ao sofrimento e a entrega de si mesmo, deixando morrer em nós toda prepotência e fazendo renascer um novo ser humano. A cruz, tão reverenciada neste período, nos ensina a não apenas enxergar o Cristo glorioso, mas a contemplar e a viver o mistério da dor como forma de se chegar ao paraíso.
É no exercício quaresmal que aprendemos a abrir o coração, a quebrar o orgulho, a vaidade e a compreender que nesta vida tudo termina em pó, e que o que permanece são as nossas boas obras de justiça, amor e perdão. Embora a conversão, enquanto mudança de vida, não ocorra cem por cento, a quaresma suscita em nós um desejo de mudança, é exercício em busca do aperfeiçoamento espiritual, conseqüentemente, uma maneira nova de viver, de agir e de tratar o próximo. Como bem nos afirma a Ir. Yone Buyst, “quaresma é tempo de retomar o caminho do Evangelho, tempo de renovação, de ‘morte ao pecado’, para que possamos ressurgir para uma vida nova com Cristo na sua Páscoa. Quaresma requer sobriedade, não é tristeza, é despojamento, ares de deserto”.
Aqui vão alguns lembretes de como devemos viver este tempo. Em clima de retiro espiritual, nas celebrações não cantamos o Glória e nem o Aleluia; a brandura dos instrumentos nos convida a reflexão silenciosa; as flores não enfeitam o presbitério, pelo menos neste período; a cor roxa é sinal de sobriedade e recolhimento; a Via Sacra nos faz repensar sobre o valor da vida e do amor de Cristo na cruz; a aspersão no Ato Penitencial renova em nós os compromissos batismais e a Campanha da Fraternidade é uma provocação pessoal e comunitária sobre as nossas contradições e injustiças que abalam os céus e provocam a crucifixão de milhares de seres humanos ainda hoje.
Vivamos a quaresma de maneira intensa, cultivando os aspectos da vida comunitária e cristã sob a perspectiva da grande Vigília (Sábado Santo), onde, naquela madrugada, o túmulo vazio sinalizou para todos nós o inicio de um novo tempo. Renovando os nossos compromissos batismais, aspergidos com água que jorra para a vida eterna, sejamos cada vez mais anunciadores e promotores de uma sociedade mais justa, onde a cultura de morte não tenha vez e nem voz.
A todos uma feliz Quaresma!
Campina Grande, 18 de fevereiro de 2009.
* Geógrafo, Teólogo e Professor.
FRATERNIDADE E SEGURANÇA PÚBLICA
CF 2009 – “A Paz é fruto da Justiça” (Is 32, 17).
* Eraldo Amorim.
Desde 1964 a CNBB lança no Brasil a Campanha da Fraternidade que sempre acontece de maneira intensa durante o período quaresmal. É, verdadeiramente, um tempo litúrgico propício a uma reflexão sobre a nossa maneira de agir, a buscarmos conversão tanto no nível pessoal quanto comunitário.
A Campanha da Fraternidade é apenas um caminho que a Igreja oferece para refletirmos sobre os problemas sociais existentes em nosso país. Na realidade, a CF extrapola os limites da Igreja, ou seja, vai além de suas fronteiras e atinge os mais diversos segmentos da sociedade. A CF não pertence à Igreja em si, é uma Campanha que deve ser abraçada por todos aqueles que sonham com uma sociedade melhor, mais justa, humana e fraterna.
E este ano, a CNBB escolheu um tema muito pertinente e que nos preocupa a todos. Com o tema: “Fraternidade e Segurança Pública” e lema: “A Paz é fruto da Justiça” (Is 32, 17), a CF, de maneira profética, nos interpela, nos incomoda e nos chama a lutar por uma cultura de paz em favor da vida e da dignidade humana tão almejada em nossa sociedade. Diz o texto base da CF 2009: “O objetivo geral da Campanha da Fraternidade 2009 é suscitar o debate sobre a segurança pública e contribuir para a promoção da cultura da paz nas pessoas, na família, na comunidade e na sociedade, a fim de que todos se empenhem efetivamente na construção da justiça social que seja garantia de segurança para todos” (Texto Base).
Entretanto, são muitos os motivos para levarmos adiante esta Campanha e não cruzarmos os braços diante da violência, da falta de compromisso do Estado, da ausência (ou omissão) da maioria dos cidadãos nas discussões sobre o tema e da desvalorização da vida e da dignidade humana. Diz a Constituição Brasileira que ”A segurança pública, dever do Estado, direito e responsabilidade de todos, é exercida para a preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio (Art. 144)”, portanto, é função primordial do Estado Brasileiro zelar pela ordem pública, defender e proteger a vida das pessoas e manter a sociedade em plena ordem. Porém, não estamos isentos de fazermos com que a segurança e a paz reinem em nosso convívio.
Mas o que é mesmo a Paz? Com certeza não é simplesmente a ausência de guerras ou conflitos declarados, muito menos um descanso silencioso que não nos incomoda, um clima brando e suave que nos deixa anestesiados e passivos. A Paz, aquela mesma que Jesus veio nos deixar (Jo 14, 27), nos incomoda, nos impulsiona a lutar por justiça, cria em nós um desejo ardente de denunciar as arbitrariedades contra a vida, nos faz falar e não calar diante das autoridades impulsivas por corrupção, diante da fome e da miséria de muitos, da falta de moradia digna e de saúde. A Paz verdadeira só irá reinar quando todos puderem desfrutar de saúde e qualidade de vida, meios de transporte descente, acesso a emprego e seus direitos respeitados, quando os conflitos sociais deixarem de existir.
A Paz é inquieta, como canta PE. Zezinho. É utopia? Pode ser, mas é um desejo que está no coração de Deus, que o Homem a promova. Não ajudaremos em nada se ficarmos calados, extasiados, olhando, como que platéia distraída, milhares de jovens sem perspectiva entrarem no mundo da criminalidade e morrerem assassinados antes de completarem 20 anos de idade; famílias destruídas por culpa do narcotráfico; presídios superlotados (verdadeiros depósitos humanos), palcos de constantes rebeliões e sem a mínima condição de sobrevivência.
Hoje é impossível não sentirmos medo ao sairmos à noite. Mesmo naqueles momentos em família não podemos deixar a porta da casa aberta, ou pararmos em semáforos durante o dia. Os assaltos, os seqüestros, os estupros, o crime organizado, a violência doméstica, os abusos de poder por parte de alguns policiais, o mau preparo dos agentes da policia, bem como o surgimento de milícias e de grupos de extermínio que atentam contra os Direitos Humanos, nos colocam em clima de total insegurança.
Culpa de quem afinal? Bem sabemos que o Estado tem grande parcela de culpa, pois não cumpre com o seu papel de principal agente responsável pela segurança, deixando a sociedade a mercê daqueles que fizeram do crime seu meio de sobrevivência. Não basta apenas aos policiais dar boa remuneração, construir presídios, diminuir a maioridade penal, investir em aparatos de segurança que diminuam a criminalidade, ou ter leis penais rígidas; é preciso antes de tudo por fim a esta sensação de impunidade que assola o nosso país, a começar por aqueles que detêm o poder e o dinheiro.
É necessário admitir que as instituições policiais (civil, militar, federal) não estão unidas no combate aos mais diversos tipos de crime. Infelizmente o que temos visto é a concepção de uma policia repressiva, autoritária e violenta, e que ao mesmo tempo em que combate a criminalidade, permite que alguns policiais se infiltrem no mundo da marginalidade, facilitando o tráfico de drogas e de armas e recebendo propinas.
“É preciso agir com competência e discernimento à luz de critérios evangélicos. Além disso, todos devem estar atentos a tudo o que forma consciências violentas” (Texto Base). Faz-se urgente a construção de um projeto de prevenção ao crime, ou melhor, que tenhamos um trabalho comunitário efetivo em áreas onde o crime mais se faz presente. Que a policia não nos cause medo, mas que penetre nas comunidades levando segurança em forma de conscientização. Que as autoridades levem a sério aquilo que dizem os especialistas em Segurança Pública.
A educação é uma forte aliada no combate ao crime. Mas assim como os policiais, não se pode simplesmente aumentar os salários dos professores (reivindicação justa), sem um projeto de ação que envolva a família, os meios de comunicação, a arte e a cultura; é preciso envolver a própria sociedade, favorecer uma melhor distribuição de renda, cultivar valores hoje esquecidos, e, acima de tudo, escutar a voz da solidariedade, não favorecendo a vingança e o ódio. Só assim a Paz verdadeiramente reinará.
Os cristãos devem expressar esse desejo de Paz a partir das suas próprias ações dentro da comunidade. De nada adianta pregar o amor sem vivê-lo de fato dentro da Igreja. Baixemos as armas do egoísmo, da vaidade, da competição e do consumismo. Façamos desta Campanha um momento, não apenas de reflexão, mas de propostas para todos, juntos, ajudarmos os governos, Ong´s, instituições religiosas, enfim, toda a sociedade a buscar alternativas que, pelo menos, amenizem o índice de violência, e que tenhamos a coragem de enfrentar as suas causas e não apenas os seus efeitos.
Que o Senhor derrame sobre todos nós, a sua copiosa bênção redentora, e que tenhamos a graça de termos o dom profético de anunciar a Paz, falando sempre a verdade, sem medo, mostrando que é possível viver com dignidade, assim como fez o profeta Isaias. “No deserto habitará o direito, e a justiça habitará o jardim. O fruto da justiça será a paz. De fato, o trabalho da justiça resultará em tranqüilidade e segurança permanentes” (Is 32, 16 – 17).
Campina Grande, 17 de Fevereiro de 2009.
* Geógrafo, Teólogo e Professor.
* Eraldo Amorim.
Desde 1964 a CNBB lança no Brasil a Campanha da Fraternidade que sempre acontece de maneira intensa durante o período quaresmal. É, verdadeiramente, um tempo litúrgico propício a uma reflexão sobre a nossa maneira de agir, a buscarmos conversão tanto no nível pessoal quanto comunitário.
A Campanha da Fraternidade é apenas um caminho que a Igreja oferece para refletirmos sobre os problemas sociais existentes em nosso país. Na realidade, a CF extrapola os limites da Igreja, ou seja, vai além de suas fronteiras e atinge os mais diversos segmentos da sociedade. A CF não pertence à Igreja em si, é uma Campanha que deve ser abraçada por todos aqueles que sonham com uma sociedade melhor, mais justa, humana e fraterna.
E este ano, a CNBB escolheu um tema muito pertinente e que nos preocupa a todos. Com o tema: “Fraternidade e Segurança Pública” e lema: “A Paz é fruto da Justiça” (Is 32, 17), a CF, de maneira profética, nos interpela, nos incomoda e nos chama a lutar por uma cultura de paz em favor da vida e da dignidade humana tão almejada em nossa sociedade. Diz o texto base da CF 2009: “O objetivo geral da Campanha da Fraternidade 2009 é suscitar o debate sobre a segurança pública e contribuir para a promoção da cultura da paz nas pessoas, na família, na comunidade e na sociedade, a fim de que todos se empenhem efetivamente na construção da justiça social que seja garantia de segurança para todos” (Texto Base).
Entretanto, são muitos os motivos para levarmos adiante esta Campanha e não cruzarmos os braços diante da violência, da falta de compromisso do Estado, da ausência (ou omissão) da maioria dos cidadãos nas discussões sobre o tema e da desvalorização da vida e da dignidade humana. Diz a Constituição Brasileira que ”A segurança pública, dever do Estado, direito e responsabilidade de todos, é exercida para a preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio (Art. 144)”, portanto, é função primordial do Estado Brasileiro zelar pela ordem pública, defender e proteger a vida das pessoas e manter a sociedade em plena ordem. Porém, não estamos isentos de fazermos com que a segurança e a paz reinem em nosso convívio.
Mas o que é mesmo a Paz? Com certeza não é simplesmente a ausência de guerras ou conflitos declarados, muito menos um descanso silencioso que não nos incomoda, um clima brando e suave que nos deixa anestesiados e passivos. A Paz, aquela mesma que Jesus veio nos deixar (Jo 14, 27), nos incomoda, nos impulsiona a lutar por justiça, cria em nós um desejo ardente de denunciar as arbitrariedades contra a vida, nos faz falar e não calar diante das autoridades impulsivas por corrupção, diante da fome e da miséria de muitos, da falta de moradia digna e de saúde. A Paz verdadeira só irá reinar quando todos puderem desfrutar de saúde e qualidade de vida, meios de transporte descente, acesso a emprego e seus direitos respeitados, quando os conflitos sociais deixarem de existir.
A Paz é inquieta, como canta PE. Zezinho. É utopia? Pode ser, mas é um desejo que está no coração de Deus, que o Homem a promova. Não ajudaremos em nada se ficarmos calados, extasiados, olhando, como que platéia distraída, milhares de jovens sem perspectiva entrarem no mundo da criminalidade e morrerem assassinados antes de completarem 20 anos de idade; famílias destruídas por culpa do narcotráfico; presídios superlotados (verdadeiros depósitos humanos), palcos de constantes rebeliões e sem a mínima condição de sobrevivência.
Hoje é impossível não sentirmos medo ao sairmos à noite. Mesmo naqueles momentos em família não podemos deixar a porta da casa aberta, ou pararmos em semáforos durante o dia. Os assaltos, os seqüestros, os estupros, o crime organizado, a violência doméstica, os abusos de poder por parte de alguns policiais, o mau preparo dos agentes da policia, bem como o surgimento de milícias e de grupos de extermínio que atentam contra os Direitos Humanos, nos colocam em clima de total insegurança.
Culpa de quem afinal? Bem sabemos que o Estado tem grande parcela de culpa, pois não cumpre com o seu papel de principal agente responsável pela segurança, deixando a sociedade a mercê daqueles que fizeram do crime seu meio de sobrevivência. Não basta apenas aos policiais dar boa remuneração, construir presídios, diminuir a maioridade penal, investir em aparatos de segurança que diminuam a criminalidade, ou ter leis penais rígidas; é preciso antes de tudo por fim a esta sensação de impunidade que assola o nosso país, a começar por aqueles que detêm o poder e o dinheiro.
É necessário admitir que as instituições policiais (civil, militar, federal) não estão unidas no combate aos mais diversos tipos de crime. Infelizmente o que temos visto é a concepção de uma policia repressiva, autoritária e violenta, e que ao mesmo tempo em que combate a criminalidade, permite que alguns policiais se infiltrem no mundo da marginalidade, facilitando o tráfico de drogas e de armas e recebendo propinas.
“É preciso agir com competência e discernimento à luz de critérios evangélicos. Além disso, todos devem estar atentos a tudo o que forma consciências violentas” (Texto Base). Faz-se urgente a construção de um projeto de prevenção ao crime, ou melhor, que tenhamos um trabalho comunitário efetivo em áreas onde o crime mais se faz presente. Que a policia não nos cause medo, mas que penetre nas comunidades levando segurança em forma de conscientização. Que as autoridades levem a sério aquilo que dizem os especialistas em Segurança Pública.
A educação é uma forte aliada no combate ao crime. Mas assim como os policiais, não se pode simplesmente aumentar os salários dos professores (reivindicação justa), sem um projeto de ação que envolva a família, os meios de comunicação, a arte e a cultura; é preciso envolver a própria sociedade, favorecer uma melhor distribuição de renda, cultivar valores hoje esquecidos, e, acima de tudo, escutar a voz da solidariedade, não favorecendo a vingança e o ódio. Só assim a Paz verdadeiramente reinará.
Os cristãos devem expressar esse desejo de Paz a partir das suas próprias ações dentro da comunidade. De nada adianta pregar o amor sem vivê-lo de fato dentro da Igreja. Baixemos as armas do egoísmo, da vaidade, da competição e do consumismo. Façamos desta Campanha um momento, não apenas de reflexão, mas de propostas para todos, juntos, ajudarmos os governos, Ong´s, instituições religiosas, enfim, toda a sociedade a buscar alternativas que, pelo menos, amenizem o índice de violência, e que tenhamos a coragem de enfrentar as suas causas e não apenas os seus efeitos.
Que o Senhor derrame sobre todos nós, a sua copiosa bênção redentora, e que tenhamos a graça de termos o dom profético de anunciar a Paz, falando sempre a verdade, sem medo, mostrando que é possível viver com dignidade, assim como fez o profeta Isaias. “No deserto habitará o direito, e a justiça habitará o jardim. O fruto da justiça será a paz. De fato, o trabalho da justiça resultará em tranqüilidade e segurança permanentes” (Is 32, 16 – 17).
Campina Grande, 17 de Fevereiro de 2009.
* Geógrafo, Teólogo e Professor.
terça-feira, 23 de dezembro de 2008
FESTA DA ENCARNAÇÃO DO SENHOR!
FESTA DA ENCARNAÇÃO DO SENHOR!
* ERALDO AMORIM
* ERALDO AMORIM
Estamos em clima de festa, é tempo de confraternização, de 13º salário, de peru assado, vinhos, queijos, doces, luzes, festa, presentes, papai noel com chegada festiva, shopping center cheio, tempo em que o nosso coração fica mais sensível para com os pobres e famintos, campanhas de alimentos... Mas o que significa mesmo este tempo?
A festa do Natal tem sua origem numa festa pagã, onde em determinadas regiões dominadas pelo Império Romano se celebrava no dia 25 de Dezembro a festa do deus Sol. Após uma longa noite de escuridão, no hemisfério norte acontece o solistício de inverno (23 a 24 de dezembro), o sol reaparece para aquecer os pobres viventes da terra após o breu total. Ele, o sol, vem trazendo vida, colheita, prosperidade e muita, mas muita alegria para aquele antigo povo que se perdeu na história.
O cristianismo que no decorrer da história vai se incorporando a realidade do Império, faz desta festa pagã um meio de evangelização e assim defende que Jesus Cristo é o verdadeiro e único sol da nossa existência, aquele que os profetas anunciaram. Ele é sol que nos ilumina, sem ele estávamos vagando nas trevas do medo, do pecado e da morte. Jesus Cristo é o Senhor da vida e da história, é Deus encarnado e revelado.
Mas só podemos compreender o verdadeiro significado do Natal sob a ótica da Ressurreição. Isto mesmo. Só através da meditação da Páscoa do Senhor é que vamos compreender o real propósito da festa natalina. Percorrendo o intenerário da fé pascal e fazendo a experiência da vida que vence a morte é que vamos fazer deste festa uma verdade de fé cristã. Caso contrário, a celebraremos ainda de forma pagã, comercial e figurativa.
O mesmo Jesus na nasce em um estábulo de ovelhas, rejeitado por todos da pequenina cidade de Belém, é o mesmo que passou a vida pregando o amor, o perdão, a inclusão, a justiça e a fraternidade. É o mesmo menino pobre, que agora feito homem, se cinge com a toalha (gesto do servo) para lavar os pés, é o mesmo que comeu com os pecadores, sarou os enfermos, tocou o leproso, e soube ouvir a mulher adúltera e samaritana. Aquele menino, que muitas vezes ofuscamos com as luzes do comércio e com a imagem capitalista do Papai Noel, é o mesmo que foi julgado injustamente por ter amado demais, por ter falando das coisas do céu e dos enseios mais profundos do ser humano.
No Natal não existe magia, não há lugar para sonhos e muito menos lugar para devaneios utópicos. O Natal é uma realidade, é a mais profunda verdade humana. Bom seria que ao celebrarmos esta festa tivessemos a certeza de que Jesus é o Emanuel - Deus Conosco - e que por meio de sua encarnação e ressurreição ele assumiu toda realidade cósmica e humana. É a magnifica união entre o céu e a terra, algo extremamente desejo por Deus Criador e pela criatura pobre e indefesa, que perdeu a dignidade da luz.
O caminho agora está aberto para nós, é esta Boa Notícia que os anjos cantavam naquele noite aos pastores. Na linguagem escrita do evangelista São Lucas, a noite estrelada indicava que algo de extraordinário havia acontecido: o Eterno se fez passageiro, o Ilimitado se fez limintado, o Todo se fez parte. É Deus encarnado e revelado numa pequenina face infantil. Tão grande mistério de amor e de paz!! Esta criancinha tão frágil e pequena veio nos trazer vida plena. Mas ela também nos julga, e o seu julgamento é correto, pois ela sendo Luz ilumina as nossas fraquezas, culpas e omissões; entretanto, mostra a cada um as virtudes e os defeitos contidos dentro da gente.
Que neste Natal tenhamos o firme propósito de contemplar o rosto de Deus em cada pessoa humana, principalmente naqueles mais marginalizados e excluidos. Façamos deste período um tempo propício para avaliarmos as nossas ações e hatitudes. Que Belém seja a nossa cidade preferida e que o presépio esteja dentro de nós em todos os dias do Ano Novo que se aproxima.
Que a Paz reine entre a humanidade! Assim Seja!
*Geógrafo, Teólogo e Professor.
(Campina Grande, 23 de Dezembro de 2008).
COM MARIA ESTAMOS A SERVIÇO DA VIDA E DA ESPERANÇA!
COM MARIA ESTAMOS A SERVIÇO DA VIDA E DA ESPERANÇA!
* ERALDO AMORIM
Vivenciamos no último dia 08 de dezembro, mais uma festa da padroeira da nossa diocese, da cidade de Campina Grande e da paróquia da Catedral.Foram momentos inesquecíveis de fé, de esperança e de amor a nossa padroeira. Momentos fortes de reflexão sobre a vida, a dignidade humana e sobretudo sobre a nossa realidade diocesana, pastoral e cristã.O Novenário, preparado com muito esmero e dedicação pelo administrador paroquial e vigário geral da Diocese, Pe. Márcio Henrique, foi uma fonte rica de muita oração, contemplação e de paz. Merece o nosso reconhecimento pelo conteúdo rico e bastante pertinente. Parabéns!
A Catedral ficou lotada todas as noites, os fiéis participaram com bastante entusiasmo. E após a missa, íamos todos para o pátio participar dos momentos festivos regados com músicas ao vivo para todos os gostos: forró, seresta romântica, louvor... além de muita comida, bebida e conversas de amigos.O ponto alto foi realmente o dia 08 de dezembro. A missa da alvorada, como de costume, atraiu centenas de pessoas logo bem cedo. Depois veio o estimável "Café da Manhã com Maria", momento propício para revigorar as energias, se confraternizar e acima de tudo fazer um gesto de acolhida aos romeiros (pessoas que vieram de longe) e aos que muitas vezes não têm um café da manhã. Aqui registro a participação dos jovens (EJC, Crisma) que deram a sua contribuição a este momento impar da nossa festa. Com certeza agradou muito a Mãe da Conceição.
Mas continuando o nosso louvor, o dia 08 de dezembro culminou com a Missa Solene presidida por Pe. Márcio (devido a ausência do nosso bispo diocesano Dom Jaime que estava participando do sepultamento do então Pe. Paulo Roberto, da paróquia de Sumé), e concelebrada pelos padres Marcos e Afonso. Agradecimento especial ao Colégio das Damas que usando de uma sensibilidade tremenda nos brindou com a Entrada da Palavra muito emocionante. Fiéis derramaram lágrimas ao verem uma jovem representando Maria, trazendo a Bíblia e com seu manto cobrindo toda a assembléia.À tarde, a procissão reuniu milhares de pessoas devotas que saindo pelas ruas da cidade louvavam a Deus e a Maria, sua Mãe. O nosso Bispo Diocesano desta vez presidiu a celebração, reascendendo a fé do povo. Sua homilia destacou a importância do Tempo do Advento para nós, na expectativa de acolhermos o Menino Jesus e na esperança de transformarmos a realidade sofrida em que vivemos.
O Pastor Diocesano falou sobre a nossa responsabilidade perante a evangelização, reafirmando o nosso compromisso missionário perante tantos jovens estudantes que as Universidades Campinenses atraem. Ressaltou também o desejo de colocar em prática as prioridades da evangelização diante do mundo globalizado, marcado com os sinais da violência, da fome, e da falta de solidariedade. Dom Jaime conclamou todos os meios de comunicação a lutar em favor da paz, afim de que diminua os assaltos, os assassinatos, e a morte de tantos inocentes. O Bispo terminou a sua pregação ressaltando a peregrinação da imagem pequenina da Conceição por toda a Diocese, começando pela paróquia de Massaranduba. E finalizou desejando um feliz e abençoado Natal.
Por fim, quero parabenizar o Pe.Márcio por mais esta iniciativa. Mas também dizer que a participação dos fiéis leigos da paróquia da Catedral, bem como os agentes de pastorais e movimentos foi importante e que sem eles a festa não teria o mesmo sucesso. Grande parte esteve presente ajudando a fazer esta bonita festa. Deus seja louvado, por cada vida doada a serviço da sua Igreja. Que tenhamos sempre mais o desejo ardente de servir, trabalhando para que o Reino de Deus aconteça entre nós! Amém!!!
* Geógrafo, Teólogo e Professor.
12 de Dezembro de Campina Grande –PB
* Geógrafo, Teólogo e Professor.
12 de Dezembro de Campina Grande –PB
quinta-feira, 16 de outubro de 2008
ALDO PAGOTTO
Aldo Pagotto: Um bispo de duas personalidades.
Ás vezes tenho saudade dos dois últimos arcebispos da Paraíba: Dom José Maria Pires e Dom Marcelo Pinto Carvalheira. Pois ambos não se misturavam com a política nos seus bastidores mais mesquinhos e nojentos como faz o atual arcebispo, Aldo Pagotto.
Logo quando chegou à Paraíba começou a causar polêmica. Disse em rede estadual que não toleraria padre na política partidária, nem que fosse para lutar em favor dos mais necessitados.
Ele pensa que nos engana. Mera ingenuidade de quem acreditou, pois o que vemos é um bispo que já até apareceu em guia eleitoral, faz parte do comitê pela transposição do Rio São Francisco (que não deixa de envolver políticos e a dividir opiniões na sociedade) e agora, por último, vem se apresentando na televisão falando de corrupção na política (desvio de dinheiro público para campanha eleitoral).
Tudo poderia ser um ato cristão se a atitude do arcebispo não fosse apenas unilateral. O senhor Aldo Pagotto faz política partidária sim, e os mais inteligentes sabem de qual lado ele está.
Ele defende um governo que controla há mais de vinte anos a cidade Campina Grande como se fosse um coronel nos tempos antigos da ditadura e do voto de cabresto. Como se não bastasse, ele está de maneira sutil, discreta, mas notória, do lado de um governo que já foi cassado duas vezes por uso indevido de dinheiro em campanha eleitoral.
Dom Aldo Pagotto é uma vergonha para os católicos. Ele tem duas personalidades. Deveria cuidar das suas ovelhas famintas e desgarradas do seu rebanho. O papel do bispo é de conscientização e de denúncia, mas principalmente é dever do pastor católico ser coerente com aquilo que diz.
Ele precisa saber que a Idade Média já era. O papel de investigar e de punir os culpados (se houver) é do Ministério Público e Justiça Eleitoral. O arcebispo não tem nada que ir às vésperas da eleição fazer denúncias que já estão sendo investigadas pelos órgãos competentes, e como se fosse “garoto propaganda” de partido político dar lição de moral.
Se a sua intenção não era de dividir o rebanho católico, quero aqui dizer, que isto ele já está fazendo ao se expor e a se meter em assuntos que nem fazem parte da sua diocese. Penso que tem assuntos mais urgentes a tratar dentro da Igreja Católica.
Mas um questionamento não quer calar. O que tem ganhado o arcebispo da Paraíba para defender tanto um governo que ainda está em pé por força liminar da justiça?
Quando saiu a decisão do TRE sobre a cassação, o arcebispo em questão foi incapaz de lançar uma nota de repúdio na imprensa ou ir aos meios expor sobre o assunto. Preferiu ser omisso. E por que agora az em plena semana eleitoral? Será algum acordo acertado na calada da noite? Se for, os fiéis católicos e o povo em geral precisam saber que tipo de acordo tem firmado este senhor com o governo atual.
Não duvido que nas próximas eleições teremos um arcebispo candidato a governador. Aliás, será que é por isso que ele não tolera padre na política? Pois os padres seriam seus principais concorrentes.
“Quem vota em políticos corruptos, vota na morte”. O senhor arcebispo é a própria morte!
Ás vezes tenho saudade dos dois últimos arcebispos da Paraíba: Dom José Maria Pires e Dom Marcelo Pinto Carvalheira. Pois ambos não se misturavam com a política nos seus bastidores mais mesquinhos e nojentos como faz o atual arcebispo, Aldo Pagotto.
Logo quando chegou à Paraíba começou a causar polêmica. Disse em rede estadual que não toleraria padre na política partidária, nem que fosse para lutar em favor dos mais necessitados.
Ele pensa que nos engana. Mera ingenuidade de quem acreditou, pois o que vemos é um bispo que já até apareceu em guia eleitoral, faz parte do comitê pela transposição do Rio São Francisco (que não deixa de envolver políticos e a dividir opiniões na sociedade) e agora, por último, vem se apresentando na televisão falando de corrupção na política (desvio de dinheiro público para campanha eleitoral).
Tudo poderia ser um ato cristão se a atitude do arcebispo não fosse apenas unilateral. O senhor Aldo Pagotto faz política partidária sim, e os mais inteligentes sabem de qual lado ele está.
Ele defende um governo que controla há mais de vinte anos a cidade Campina Grande como se fosse um coronel nos tempos antigos da ditadura e do voto de cabresto. Como se não bastasse, ele está de maneira sutil, discreta, mas notória, do lado de um governo que já foi cassado duas vezes por uso indevido de dinheiro em campanha eleitoral.
Dom Aldo Pagotto é uma vergonha para os católicos. Ele tem duas personalidades. Deveria cuidar das suas ovelhas famintas e desgarradas do seu rebanho. O papel do bispo é de conscientização e de denúncia, mas principalmente é dever do pastor católico ser coerente com aquilo que diz.
Ele precisa saber que a Idade Média já era. O papel de investigar e de punir os culpados (se houver) é do Ministério Público e Justiça Eleitoral. O arcebispo não tem nada que ir às vésperas da eleição fazer denúncias que já estão sendo investigadas pelos órgãos competentes, e como se fosse “garoto propaganda” de partido político dar lição de moral.
Se a sua intenção não era de dividir o rebanho católico, quero aqui dizer, que isto ele já está fazendo ao se expor e a se meter em assuntos que nem fazem parte da sua diocese. Penso que tem assuntos mais urgentes a tratar dentro da Igreja Católica.
Mas um questionamento não quer calar. O que tem ganhado o arcebispo da Paraíba para defender tanto um governo que ainda está em pé por força liminar da justiça?
Quando saiu a decisão do TRE sobre a cassação, o arcebispo em questão foi incapaz de lançar uma nota de repúdio na imprensa ou ir aos meios expor sobre o assunto. Preferiu ser omisso. E por que agora az em plena semana eleitoral? Será algum acordo acertado na calada da noite? Se for, os fiéis católicos e o povo em geral precisam saber que tipo de acordo tem firmado este senhor com o governo atual.
Não duvido que nas próximas eleições teremos um arcebispo candidato a governador. Aliás, será que é por isso que ele não tolera padre na política? Pois os padres seriam seus principais concorrentes.
“Quem vota em políticos corruptos, vota na morte”. O senhor arcebispo é a própria morte!
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